quarta-feira, 6 de julho de 2011

Bella vita

Caylee Anthony
Uma criança de apenas dois anos de idade, linda e angelical como convém a uma criança, morre e tem seu cadáver abandonado no mato. A mãe segue sua vida normalmente, sem transparecer nenhuma preocupação. Muda-se para a casa do namorado, frequenta festas, participa da um concurso de beleza e faz uma tatuagem com a inscrição "Bella vita", talvez porque sua vida, naquele momento estivesse muito bonita.
31 dias mais tarde, a descoberta de evidências traz à tona a tragédia. Pela primeira vez, a mãe reporta o desaparecimento de sua filha, que teria sido sequestrada por uma babá. Tese interessante, considerando o absoluto desinteresse da mãe pela suposta refém. Mais um pouco e se descobriu o cadáver. A mãe, Casey Anthony, tornou-se a principal suspeita do homicídio e entra no centro de um dos mais rumorosos casos criminais da história recente dos Estados Unidos. Passou a dizer que a criança morrera acidentalmente, afogada na piscina de casa. Seu corpo fora descartado por medo.
Execrada pela imprensa e pela opinião pública, a mãe cognominada "monstro da Flórida" passou as últimas seis semanas sob julgamento e, por fim, acabou inocentada das acusações principais. Responderá apenas por mentir às autoridades sobre um crime inexistente, o que pode lhe render uma pena de no máximo quatro anos de prisão, dos quais três já foram cumpridos (Casey está presa desde 2008).
Veredito anunciado: absolvição inesperada
pela sociedade estadunidense
Fosse no Brasil, todo mundo, a começar pelos brasileiros, diria que isso aconteceu porque era no Brasil. Uma bobagem, porque em qualquer lugar onde o processo penal tenha algum caráter de justiça, um réu não pode ser condenado por homicídio se são desconhecidas as causas da morte da pretensa vítima. A morte da pequena não foi esclarecida pelos legistas. Se não se sabe por que ela morreu, não se pode imputar homicídio, muito menos doloso.
Por maior que seja o estarrecimento do público, a decisão do júri é tecnicamente correta. Os jurados, por sinal, deram prova de julgar com a própria consciência e não movidos por um desejo cego de atender à pré-condenação midiática. Fosse no Brasil, temo que os jurados acabassem condenando por esse motivo, mas não tenho certeza se tal ocorreria.
No final das contas, Casey Anthony será condenada por um crime menor, mas um em relação ao qual se tem certeza que praticou. No Brasil, responderia também por ocultação de cadáver. Quanto às certezas que cada pessoa possui em seu coração sobre a culpa dessa mulher, na verdade não são certezas. São inferências altamente plausíveis a partir de comportamentos que parecem totalmente incondizentes com o contexto. Plausibilidade não é conhecimento, porém.
Eu também acho que Casey Anthony matou sua filha e, provavelmente, fê-lo para curtir a vida. Mas é apenas isso: eu acho. Pode-se protestar o quanto for, mas no final a única certeza que podemos ter é esta: uma criança morreu. Não há como esta história terminar bem.

Mais: http://noticias.uol.com.br/bbc/2011/07/06/absolvicao-de-mae-acusada-de-matar-filha-de-2-anos-gera-comocao-nos-eua.jhtm

3 comentários:

Gabriel Parente disse...

Achei bastante sóbria a decisão dos jurados estadunidenses, os quais, aparentemente, não se deixaram levar pela pressão popular e midiática do caso. Logo, havendo dúvidas sobre a autoria do crime, decidiram por inocentá-la. A essência é: ela pode até ter cometido o crime - independentemente das razões -, mas eu não tenho como provar isso com os fatos que se têm no processo. Isso me lembrou "12 Homens e uma Sentença", do Sidney Lumet.

Yúdice Andrade disse...

A decisão é sóbria, sim, Gabriel. O problema é, justamente, convencer as pessoas de que a razão deve prevalecer sobre a emoção, ainda mais numa questão que inevitavelmente tira as pessoas de seus eixos.

Adrian Barbosa e Silva disse...

Não há de se pensar diferente quanto à qualidade do júri. A chegar à decisão que chegaram, está claro a competência e a lucidez.
Fico feliz de saber que assim ainda acontece, já que, muita das vezes, por se tratar de uma justiça de fato, os jurados acabam comprometendo as suas consciências seja pelas suas próprias pré-compreensões e preconceitos, seja pré-julgamentos midiáticos popularescos. Ou seja, a alienação é quem solta ou manda prender.