sexta-feira, 1 de julho de 2011

A cabeça do brasileiro

A novela Vale tudo, fenômeno de audiência durante sua exibição original, em 1988, e novamente agora, reprisada pelo canal Viva, tinha um casal de lésbicas, interpretado pelas atrizes Lala Deheinzelin e Cristina Prochaska. Mesmo sem nenhuma cena mais evidente, o simples conhecimento da homossexualidade das personagens provocou reação negativa do público, a ponto de o autor, Gilberto Braga, a contragosto, matar uma das garotas. E foi uma morte expressiva da histeria preconceituosa: um acidente de carro com direito a explosão. A destruição do corpo da moça me parece um símbolo, algo que bem poderia ser estudado por psicólogos.
Sete anos depois, em A próxima vítima, Sílvio de Abreu explorou a relação entre dois rapazes, vividos por André Gonçalves e Lui Mendes. Não havia intimidade entre eles, mas a homofobia foi escancarada e rendeu uma agressão de verdade ao ator André Gonçalves.
Em 2003, Manoel Carlos criou polêmica com um romance adolescente defendido por Alinne Moraes e Paula Picarelli, na obra Mulheres apaixonadas. Havia histeria na família da personagem de Alinne, mas o autor quis vender seu peixe. Receoso das consequências, apelou para o escapismo: no final da novela, numa encenação escolar de "Romeu e Julieta", um imprevisto levou Rafaela (Picarelli) a fazer o papel de Romeu e, com isso, deu um selinho na amada.
Dois anos depois, Glória Perez usou sua América para mostrar a homossexualidade de Júnior (Bruno Gagliasso), cuja mãe envidava todos os esforços para convencê-lo de que era macho. Até um casamento e um filho aconteceram, mas no fim foi divulgado com estardalhaço o que seria o primeiro beijo gay da TV brasileira. Quem apostou que a conservadora Globo refugaria, acertou. Na última hora, os dois rapazes aproximam os rostos e a cena foi cortada, para frustração e ira de muitos.
Nos últimos anos, personagens gays viraram rotina nas novelas. Parece até que implantaram uma espécie de política de cotas. Mas a existência deles atende a válvulas de escape: de um lado, são personagens burlescos, que servem de alívio cômico para a trama. De outro, se houver um relacionamento, é o mais asséptico possível, como se viu em Páginas da vida (de Manoel Carlos, 2006), com os atores Carlos Casagrande e Sérgio Abreu, que eram casados mas não se tocavam sequer respeitosamente.
Agora é a vez do SBT. Em sua ânsia por melhores índices de audiência, tomou da Record o autor Tiago Santiago, famoso não sei por quê (sempre o odiarei por ter inventado aquela patética trilogia dos mutantes), e apostou em Amor e revolução (por que toda novela do SBT tem "amor" no título?), centrado na ditadura militar e que recorreu ao apelo fácil das relações homossexuais. Veio então o estardalhaço do primeiro beijo gay da TV brasileira, estrepitoso, mas que não rendeu audiência. E foi entre duas mulheres (as atrizes eram Luciana Vendramini e Gisele Tigre). Satisfeito com a boa repercussão, o autor anunciou para breve um beijo masculino. Dúvida no ar: o SBT terá coragem?
Não teve. A cúpula da emissora cortou as asinhas do autor e o tal beijo foi sumariamente eliminado. Além disso, o homossexualismo de um personagem que é padre também foi vetado. A preocupação é com o público mais conservador.
Em suma, o máximo que se consegue tolerar é o beijo entre duas mulheres, o que para muitos é fetiche. Mas entre dois homens, nem pensar. Os mais intensos valores da tradição, família e propriedade não permitem de modo algum. E assim segue a cabeça do brasileiro.

Outras novelas e personagens gays em novelas da Globo: http://acapa.virgula.uol.com.br/cultura/conheca-os-personagens-gays-que-fizeram-historia-nas-novelas/3/4/1511

5 comentários:

Lilica disse...

Bom dia, Yúdice, apesar de não ser uma assídua telespectadora de novelas, penso que todo esse estardalhaço sobre beijos gays em novelas, torna ainda mais "diferente" para a população a relação homoafetiva. Conheço pessoas que acham que a relação entre pessoas do mesmo sexo não é natural e veem até como patológica. Assisti na TV Cultura o Programa 3 a 1, um debate muito bom sobre a legalização das uniões entre gays. Muito melhor do que assistir novelas, pois elas deformam a opinião pública, causando mais prejuízo do que benefício. Um abraço, bom fim de semana.

Ana Miranda disse...

Eu não consigo entender, não entra na minha cabeça o porquê de pessoas do mesmo sexo não poderem namorar.

Não assisto a novelas há mais de 20 anos, mas não vejo nada de errado que casais homo afetivos tenham histórias relatas nas mesmas...

caio disse...

Lembrei de Torre de Babel. Adorava, haha. Acho que também era do Silvio de Abreu, e ele, dez anos depois de Vale Tudo, foi mais radical que o próprio Gilberto Braga: ambas do casal lésbico (Silvia Pfeiffer e Christiane Torloni) morreram, na explosão do shopping...

Acho que teve outro naquela Senhora do Destino... Bárbara Borges e Myla Christie. Mas essa não acompanhei tanto, só sei que ficaram juntas, mas também expostas de forma light.

Luiza Duarte Leão disse...

Neste fim de semana, assisti a um filme excelente, em que o Colin Firth interpreta um homossexual nos anos 60, tendo sido indicado ao Oscar pelo papel, um ano antes de ganhar, por O Discurso do Rei.
Chama-se Direito de Amar (mas o título original - A Single Man - era mais apropriado, com certeza). Tem algumas cenas de beijo, carinho e ternura, que incomodaram os homens presentes. Óbvio que teve o comentário típico, sobre beijo/sexo entre mulheres.
A homossexualidade feminina não é levada à sério. É comum que as pessoas pensem que as mulheres são lésbicas por terem se desiludido com homens ou por "não terem sido pegas de jeito". Os homens acham que podem "regenerar" uma lésbica, enfim, mas também não se incomodam se ela quiser convidar uma amiga.
Não sei o que é pior, se ser marginalizado ou não ser levado à sério.

Yúdice Andrade disse...

Sempre digo, Lilica, que sendo o principal produto de entretenimento da família brasileira, as novelas são um dos mais eficentes meios de levar informações ao grande público, sejam boas ou más. Penso que essa "cota gay" nas novelas expressa justamente esse sentimento de urgência em tratar do assunto, ainda que isso não conduza necessariamente a um debate de qualidade. Mas ainda é melhor do que não disseminar debate algum.
O programa que mencionaste sem dúvida alguma é muito superior, mas qual o seu alcance? Qual é o percentual de audiência da Cultura? Diante dessa realidade, é bom pensar em estratégias para fazer o povo pensar em certas matérias.

O problema, Ana, é que o contrário não entra na cabeça de muitas outras. E essas outras têm uma voz mais ativa - pelo menos até o momento.

Sim, Caio. Esses personagens que mencionaste são citados na matéria cujo link se encontra ao final da postagem.