segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"Acadêmico classe C", segundo Deisy Ventura

Caros
Diante da abundância de preconceitos e do arrivismo barato que verte deste artigo, é difícil identificar um foco para resposta. No entanto, para não deixar passar desapercebido tamanho risco, escolho e ressalto três aspectos.
Primeiro, não podemos deixar que se afirme e difunda em nosso meio esta pecha de "estudante classe C". A mera repetição desta expressão já serve para consolidar o estigma. As escolas devem ser avaliadas, algumas delas inclusive fechadas, mas jamais se pode etiquetar os alunos.
Segundo, embora não seja a regra, sabemos que há alunos privilegiados em instituições "baratas" (em todos os sentidos) e há alunos economicamente hipossuficientes em universidades públicas consideradas excelentes. Antes mesmo de discutir o que é excelente, também é preciso dizer que há alunos de, segundo o autor, "classes A e B" que são dedicados, críticos, engajados, que lutam contra suas próprias contradições, e - eureka! - muitos deles optam por dedicar sua vida a subverter esta ordem que gera a etiquetagem A, B e C.
Agora o pior, terceiro e último foco: é inaceitável conceber como horizonte de ambição do aluno da escola "barata" ser inspetor de polícia, assessor de tribunal ou oficial de Justiça. Porque seria imenso o risco de que um dia ele se tornasse Desembargador, viajasse para a Disney, comprasse roupas caras e escrevesse um artigo como esse.

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2 comentários:

Luiza Duarte disse...

Achei estranho um tópico como este não ter gerado comentários. Esperava muitos, mas depois me dei conta que nem eu mesma conseguia comentar. Acho que Deisy Ventura falou tudo. Por um lado, o nobre Desembargador não expôs nada que não aconteça de fato.

O que pesa sobre ele é o fato de ter criado o rótulo, que dá a tônica do preconceito. Coloca de fato os ditos "estudantes classe C" como pessoas com pretensões acadêmicas e profissionais tacanhas.

Entretando, quem queremos enganar? Existe sim a massificação dos cursos de Direito. Existem milhares de alunos que buscam aprender um pouquinho mais de Direito Constitucional e Administrativo para usar em concursos públicos de nível médio. Estudam por sinopses especialmente voltadas para este fim. A questão é que isso independente de classe social, mas é inegável a predominância de pessoas egressas das classes sociais mais baixas.

Particularmente, não diria que eles estão errados. Cada um faz suas escolhas. Nem todos buscam a excelência acadêmica, o reconhecimento do "notório saber jurídico", mestrados ou doutorados. Cada um tem a sua pretensão e não sei se estamos corretos em julgar.

As universidades/faculdades, porém, não deveriam aceitar a mediocridade, como acontece sistematicamente, em todos os cursos e em instituições privadas e públicas. Quem não quiser estudar, não estuda e é aprovado. O nível de exigência é muito baixo. Acho que é isso que deve ser criticado nas "faculdades classe C" e em todas as outras. O problemas daquelas, ao meu ver, é a mercantilização. Enquanto as faculdades mais tradicionais alardeiam seus feitos acadêmicos e sua qualidade, as outras fazem publicidade dos seus preços baixos e da baixa carga horária de aulas.

A cultura do "diploma" no Brasil tomou níveis absurdos, ao meu ver. Todo mundo quer ter nível superior, sem ter um conhecimento, digamos, "superior". Quem não fizer questão das leituras pesadas, dos termos técnicos, das exigências, etc, poderia fazer cursos técnicos, voltados para a área de interesse, como acontece em muitos países. No Brasil, entretanto, o diploma tem três finalidades: status, prestar concurso público para nível superior e ter direito à prisão especial.

A culpa é de quem? Não creio que seja do mercado. O mercado busca atender as necessidades das pessoas e, se elas desejam cursos superiores rápidos, com facilidade de ingresso (e de saída!) e direcionadas para provas objetivas, elas terão! O dever de regulamentar não é do mercado, mas do MEC, que era quem deveria primar pela qualidade, pelo incentivo à pesquisa, à produção bibliográfica, à prática profissional, etc.

Há ainda falhas aparentemente intransponíveis nos níveis de formação anteriores. Os estudantes com formação de nível médio não saem das escolas bem preparados para nada. Os cursos técnicos muitas vezes não são valorizados como deveriam, quando, na verdade, poderiam ser a opção de muitos dos profissionais que vemos hoje. A solução é o curso superior barato e que não dê muito trabalho, para buscar ascensão profissional rápida (pelo menos é o que eles presumem).

Existe, ainda, um problema muito, mas muito além da competência do MEC: a economia do país. Enquanto praticamente todos os segmentos forem mal remunerados, como afastar o sonho do serviço público?

É uma distorção sem tamanho o emprego público ser a melhor oportunidade de emprego da maioria da população e pagar muito mais do que as empresas privadas. Um país com uma economia saudável não deveria ser assim! Enquanto for, teremos que ver muitas pessoas buscarem o diploma de nível superior por mera exigência dos editais, porque é isso que o ensino superior brasileiro se tornou: uma ponte rápida, e não a busca do conhecimento, através de trabalho árduo.

Yúdice Andrade disse...

Luiza, eu também esperava que as postagens rendessem um debate. Imagino que o Paulo idem, ao me enviar os textos. Lamento que não tenha ocorrido. Mas, felizmente, consegui mais uma abordagem primorosa tua. E ela receberá o devido destaque.