segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Animalescos

Quanta saudade dos tempos em que a educação, cortesia e solidariedade presidiam as relações entre as crianças, nos momentos de suas brincadeiras!
Em minha infância, brincávamos na rua, em um monte de jogos coletivos. Mesmo nas disputas individuais p. ex. peteca (ou bola de gude, se preferir), pira (ou pique), boca-de-forno, fura-fura, etc. , havia mais atenção entre as crianças, porque afinal estávamos ali para nos divertir juntos.
Eu não teria a ingenuidade de dizer que não havia competição maldosa e condutas perversas, mas a educação a educação que se recebe em casa , era muito melhor.
Ontem, na visita que fizemos à Ice Bode, constatei mais uma vez como andamos mal das pernas no trato com nossas crianças. Hiperativas (não necessariamente no sentido técnico do termo), mas acima de tudo grosseiras e egocêntricas, a molecada se acotovelava no espaço apertado, desconhecendo conceitos elementares, tais como respeitar a vez de quem chegou primeiro. Não tinham o menor cuidado com as crianças menores. E cometiam seus desatinos ou sob as vistas omissas dos pais, ou sob a omissão de pais que sequer saíram de suas mesas.
A certa altura, quando minha Júlia se aproximou do escorregador e duas pestes quase chutaram a sua cabeça para passar à frente (um menino e depois uma menina, que supúnhamos mais gentis), bati no vidro e chamei a atenção de minha esposa, que não reagira a isso. Disse-lhe que essa é a nossa oportunidade de dar a essas pragas um pouco da decência que seus pais lhes negam. Falei de modo a que os circunstantes me escutassem (se é que alguém escutava alguma coisa naquela balbúrdia) e pelo menos uma senhora me olhou com cara de quem processava a informação. O filho dela, vi depois, estava no parquinho.
Eu achava que a futura escola da Júlia acabaria com a minha vida, mas pelo visto o meu infarto pode acontecer antes mesmo de começarem as reuniões de pais. Não tolerarei incivilidade. Moleque não vai empurrar, furar fila nem dizer, com orgulho, "eu sou terrível!", como um disse ontem, bem na minha cara, e ficar impune. Será impedido de consumar seus atos agressivos e terá que esperar, com ou sem paciência, a sua vez chegar. E escutará as verdades que merecer escutar. E seus pais também, é claro. Mas imagino que isso me custará caro. Afinal, na atual sociedade do mundo-que-gira-em-torno-do-meu-umbigo provavelmente o errado sou eu.
Mas até que eu me convença disso...
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5 comentários:

Ana Miranda disse...

Caro Yúdice, é com pesar que leio seu relato.
Fiquei me imaginando daqui uns anos passeando com meus netos e tendo o prazer do passeio invadido por falta de educação alheia.
É difícil pra caramba lidar com isso...

Yúdice Andrade disse...

Difícil?! É terrível! E olha que ainda nem parti para o confronto...

Polyana disse...

Depois que você falou comigo eu percebi que deveria ter feito com que a vez da Júlia fosse respeitada. Eu fico pensando em ensiná-la a esperar sua vez e respeitar a vez dos outros, e era nisso que pensava naquele momento, mas devo também ensiná-la que ela merece respeito do mesmo jeito e que eu estou ali também com esta função. Na próxima será diferente.

Yúdice Andrade disse...

Estamos aprendendo o tempo todo, meu amor.

Jean Pablo disse...

Pois é primo. Se na "minha geração" (não gosto deste termo, acho muito possessivo)já há esses desmandos, o que dirá na nas "pestes informatizadas" que aprendem a se relacionar pela internet, espaço em que se comete "delitos" sem ser notado?

Falo de "minha geração" porque volta e meia sou tachado de "burro" - para não dizer coisas piores - por simplesmente respeitar uma fila, não atravessar um sinal fechado (por mera prudência) ou dar a vez à uma pessoa de idade. Para mim, atitudes que, certamente herdei de meus pais e hoje as tenho como corriqueiras e normais.
Aliás, tenho certeza que a Júlia terá a educação semelhante. A escola e as influências das amizades são grandes, mas quando o "berço" é bem trabalhado, não há desvios.
Abraços!!!