domingo, 18 de setembro de 2011

Flor do deserto

Waris Dirie
Em 4.10.2007, publiquei a postagem "Pela pureza sexual", sobre a prática da infibulação ou "circuncisão feminina". Ao final, mencionei a modelo Waris Dirie, que nasceu na Somália e, aos 3 anos (não escrevi errado: foi aos três anos), foi levada pela mãe a um local onde, em cima de uma pedra, teve o clitóris e os lábios vaginais cortados com gilete e, depois, a ferida foi costurada com um espinho enorme cumprindo a função de agulha. A midgaan (mulher que realiza o ritual praticado há mais de 3 mil anos, sem no entanto ser mencionado no Alcorão) costurou tudo, deixando apenas um pequeno orifício, do tamanho de uma cabeça de palito de fósforo, para a passagem da urina e sangue menstrual. O objetivo é demonstrar fisicamente a virgindade e a pureza da mulher. Quando ela se casa, na noite de núpcias o marido usa uma navalha para cortar a pele e expor novamente a vagina, antes de penetrá-la.

Esta explicação, que congela a alma, foi dada pela própria Waris numa assembleia da Organização das Nações Unidas, após ter seu drama divulgado pelo mundo, na esteira do enorme sucesso que já fazia como uma das mais importantes top models em atividade. Depois disso, Waris se tornou embaixadora da ONU para proscrição dessa forma de mutilação no mundo.

Aprendi isso vendo o filme Flor do deserto (Desert flower, dir. Sherry Horman, 2009), a cinebiografia da ex-supermodelo, hoje com 46 anos. A narrativa começa no deserto, quando Waris ("flor do deserto" é o significado do seu nome) tem 13 anos e é vendida pelos pais para ser a quarta esposa de um homem muito mais velho. Mostra-se o amor entre ela e o irmão mais novo, que não deseja se separar dela nunca. Mas se separa, porque a menina foge para não ser obrigada a casar. Mostra-se, também, que a mãe podia ter impedido a sua fuga, mas não o fez. Segue-se uma travessia do deserto, sozinha, a pé e sem nenhuma comida, com direito a uma tentativa de estupro, mal sucedida talvez por conta do fechamento de sua vagina. Sobreviver a isso já foi o primeiro milagre.

Liya Kebede, outra famosa modelo, de origem etíope,
interpretou Waris no cinema.
Numa narrativa não linear, vemos a menina se tornar empregada de uma parente, casada com o embaixador da Somália em Londres. Não fosse por esse contato, decerto que o destino de Waris teria sido ainda mais trágico. Mas não se iluda: ela era praticamente uma escrava num cativeiro light. Quando eclodiu a guerra civil na Somália, o embaixador foi convocado a voltar. Em pânico, Waris preferiu fugir e se tornar mendiga nas ruas de Londres, até encontrar Marilyn, uma frustrada aspirante à bailarina que primeiro a repudia e, depois, a acolhe.

É o começo da virada. Marilyn a instrui a procurar um emprego e é assim que Waris acaba numa lanchonete, onde cruza com um famoso fotógrafo, que se encanta por sua beleza. Ainda vai demorar um tempo para que a jovem crie coragem de procurá-lo (nesse meio tempo, fará uma cirurgia para corrigir sequelas da mutilação sofrida, com destaque para a cena em que um enfermeiro somali a menospreza por querer trair os pais e as tradições). No final, mas não sem outros sofrimentos (a prisão por estar ilegalmente no país e o casamento arranjado para obter um visto definitivo), Waris se torna uma modelo de sucesso no mundo todo.

A diretora preferiu mostrar a mulher rica e bem sucedida antes de nos apresentar, na sequência final do filme, a cena da mutilação. Ainda que tente minimizar o horror, não há como ignorar o que sabemos estar acontecendo. Para mim e minha esposa, que largou o que fazia para ver esse trecho, havia o sofrimento adicional de termos uma filha exatamente da mesma idade, enquanto víamos uma menina desesperada, sem entender por que a mãe não a ajudava e ainda a deixava sob os "cuidados" de uma estranha no pior momento de sua vida.

A jornalista que escuta a história da modelo termina arrasada, chorando. A reportagem é publicada e Waris chega à sede da ONU, onde suas palavras também impactam. Ela chama as mulheres africanas de "espinha dorsal" da sociedade e elucubra sobre como o continente seria mais forte se elas pudessem viver plenamente.

A essa altura, só consigo pensar em como as mulheres sofreram ao longo da História, por toda parte e pelos mais variados motivos. Não sei como uma mulher se sente diante desse quadro, mas eu chego a sentir vergonha de ser homem — algo irracional, decerto, mas não consegui encontrar outro nome para o que senti.

Hoje, Waris Dirie comanda a Desert Flower Foundation, em cujo sítio você pode se instruir mais sobre esse drama ainda tão presente.

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4 comentários:

Luiza Duarte Leão disse...

Yúdice, querido, todos nós temos que sentir vergonha, por saber que coisas assim ainda acontecem e nós não fazemos nada! Ontem mesmo li uma reportagem na National Geographic, sobre meninas que se casam com 5 anos.
Também tenho vergonha de viver em um mundo onde as mulheres ainda são julgadas pelo número de parceiros sexuais, inclusive pelas próprias mulhes.
Dia desses, li no Facebook um imbecil dizer que o homem era valorizado pela vida sexual ativa porque uma "chave que abre muitas fechaduras é uma chave-mestra , mas uma fechadura que se abre por qualquer chave, não tem valor". Não me consta que vaginas sejam fechaduras. Não há nenhum tesouro dentro delas, é só sexo.
É vergonhoso que as pessoas ainda se submetam a um padrão imposto em uma época em que não havia controle de natalidade e os homens não podiam correr o risco de criar o filho alheio (o que, convenhamos, é realmente desagradável, quando não é voluntário).
Não há mais razão para nada disso, mas continuamos nos submetendo e aceitando que nos chamem de vadias por qualquer coisa. Continuamos aceitando que pequenas e grandes brutalidades nos afetem e continuem a existir no mundo.
Não é fácil, Yúdice, perceber que pessoas ainda menosprezam o que você diz, por ser mulher, jovem e bonita. É admirável que ela tenha conseguido usar sua beleza para ser ouvida. É lindo, na verdade!

P.S: Onde encontro o filme? Locadora? TV à cabo?

Yúdice Andrade disse...

Felizmente para muitas mulheres, Luiza, Waris Dirie teve a coragem de se expor. Hoje existe uma grande resistência a essa prática absurda na comunidade internacional, mas não é possível reverter o quadro sem mudar as mentes do cidadão comum, nos muitos países que ainda adotam a prática nefanda.
Seja como for, esse é um quadro acima de qualquer compreensão. A mulher ainda precisa vencer o menosprezo e a desqualificação nas mais variadas situações da vida cotidiana, mesmo em sociedades que lhe permitem avançar.
Quanto a sua pergunta, respondi via Facebook.

Frederico Guerreiro disse...

Li a história dela no Reader's Digest. Chocante.

Ana Miranda disse...

Li seu texto lembrando-me do filme a que assisti horrorizada.

Queria tecer alguns comentários, mas depois de ter lido o comentário da Luiza - pessoa a quem muito admiro - vi que ficou desnecessário, pois ela, sabiamente, disse tudo.

Eu também sinto-me envergonhada diante de um fato desses...

Eu adoro suas colocações, Yúdice!!!