terça-feira, 30 de janeiro de 2007

História dos vencedores e dos idiotas


Nos gloriosos anos 80, uma das melhores bandas brasileiras de todos os tempos — Legião Urbana — emplacou o sucesso Geração Coca Cola, uma de suas melhores letras (de Renato Russo e Fê Lemos). Eis o introito:

Quando nascemos fomos programados
pra receber o que vocês
nos empurraram com os enlatados
dos U.S.A., de nove às seis

Longe de ser mera rabugice de adolescentes, desejosos de ser do contra e de agredir tudo que a sociedade considerava relevante, nossos valorosos artistas tinham toda a razão. Ou vai me dizer que você estudou, na escola, alguma coisa da História dos povos orientais, por sinal mais antiga que a do Ocidente? Alguém dirá, talvez, que se trata de uma História pobre e desinteressante? Tempos atrás li alguma coisa sobre a explicação mitológica para o surgimento do Japão. É um épico tão belo e poderoso quanto qualquer lenda grega.
O fato é que sabemos muito mais sobre a Terra Média — mundo criado pelo genial J. R. R. Tolkien (um inglês e, portanto, ocidental) do que sobre a milenar China, essa que caminha para ser, segundo alguns analistas, o país dono do mundo daqui a alguns anos, em substituição aos Estados Unidos. Em se tratando de um povo que tem na defesa de suas tradições uma questão vital — e de um Estado que se notabiliza por ser altamente totalitário e limitador da democracia e das liberdades individuais num estilo quase medieval —, conhecer a História chinesa poderia ser útil inclusive no sentido da autoproteção.
Fala-se muito que a História e a cultura são disseminados apenas pelos vencedores. A História que conhecemos não é necessariamente verdadeira, mas uma opção teórica de nações hegemônicas, daí a grande importância das revisões históricas, que já reabilitaram até Nero, apontado como um dos maiores vilões de todos os tempos.
Vai dizer que não? Por acaso na escola você não se danou a estudar sobre a Europa? As aulas de História Antiga não eram sobre Grécia e Roma? As de História Medieval não tratavam sobre o feudalismo europeu e o poderio da Igreja Católica Apostólica Romana? As de História Moderna não começavam com as Grandes Navegações, de Portugal e Espanha, com posterior destaque para a Inglaterra? Aí vinha a Revolução Francesa, a Revolução Industrial e os conflitos geopolíticos europeus que redundaram nas duas guerras mundiais. Nada sobre o Oriente.
Estudamos sobre a colonização norte-americana, a queda da Bastilha e um tal de príncipe Francisco Ferdinando. Mas a participação do Japão na II Guerra é tratada de forma secundária, até porque ele estava do lado errado. Aí estudamos o modelo econômico fordista (norte-americano), do qual se fala muito até hoje. Em meados dos 1900, lembramos que existe um lugar no planeta chamado América Latina. Mas o que estudamos lá? A Revolução Cubana, sob a ótica dos norte-americanos, que ditaram aos brasileiros como tal assunto deveria ser tratado nas escolas. A lição de casa foi feita, porque aqui tínhamos grupos reacionários extremistas, marchando nas ruas contra a ameaça comunista, chegando por fim à ditadura militar, que dispensa comentários.
Para não faltar à verdade, alguém me falou, na escola, que na América viveram povos avançados para a época, incas e maias, que acabaram dizimados pelo colonizador espanhol. Porém, ninguém me explicou como foram essas sociedades, seu modo de vida, nem analisaram para mim o sentido e as implicações do genocídio que sofreram. O pouco que sei se deveu a leituras feitas por interesse pessoal. Corro o risco de ter, como principal referência sobre as civilizações indoamericanas, Mel Gibson e seu filme Apocalypto, que estreia em breve. (Nota em 11.9.2011: como desde o primeiro momento tudo indicava que o filme era péssimo, nem me dei ao trabalho de ver.)
Se você aprendeu alguma coisa sobre outros povos além desses que citei ou se lhe foi dado senso crítico sobre a História, rejubile-se. Eu lamento não ter passado pela mesma escola. A mim, só ensinaram — e mal — a História dos vencedores e dos idiotas.
Como o texto já está muito longo, volto outra hora para tratar um pouco da História do Brasil, motivo da expressão "idiotas" do título.

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