terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Comida sem frescura

O que você prefere comer? Confit de canard ao molho de cinamomos ucranianos, prensados pelas freiras ciclotímicas da Lapônia, acompanhado de risoto de especiarias da Indochina, ou uma porção de charque desfiado, bem dessalgado, com aquele arrozinho branco que pode ter sobrado de ontem? A maioria das pessoas provavelmente responderia que depende da ocasião. Deveras, mas a questão aqui é falar sobre tendências. Afinal, que espécie de comida você aprecia?

Cozinha francesa: romântica,
artística, multifacetada e escassa
- o ícone da chatice
 Gosto de visitar restaurantes. Quando conheço um novo, passeio pelo cardápio para tentar entender o que pensa o chef. Mesmo aqui em Belém, onde não existem aqueles estabelecimentos onde o cafezinho sai a 500 reais, volta e meia me deparo com umas iguarias engraçadíssimas, que me passam a nítida impressão de sofisticação forçada, artificial como o suco de caju que minha mãe toma. Eu não, porque detesto caju.
Começo a desconfiar quando vejo o cardápio cheio de estrangeirismos ou minudências. Faz alguma diferença se o molho foi feito com a parte de cima do tomate escarlate criado na região setentrional da Terra do Fogo? Aposto que ninguém cultiva tomates na gelada Terra do Fogo! Em boa parte dos casos, esses fru-frus são pura enganação. E felizmente agora posso afirmar isso com base em estudos!

Feijoada: o mais conhecido dos
pratos brasileiros, reabilitado
em mesas requintadas
 Encontrei por acaso este divertido texto assinado por Iara Biderman, explicando sobre pessoas que já se cansaram de comida afrescalhada. Gostam mesmo é da boa e velha comida simples, que pode ser encontrada em nossas casas, alimentar, fazer bem à saúde e ainda por cima divertir. Como uma singela posta de dourada grelhada, servida com arroz branco e farofinha.
O texto é um pouco longo para os padrões internéticos, mas vale a pena ler. A parte final, sobre como reconhecer restaurantes pós-gourmets, é um barato. Tive que rir com a oportuna dica n. 2: "A comida precisa ocupar ao menos 85% da área total do prato (com preferência para iguarias com um taxa de ocupação de mais de 100% dos pratos, como bifes que caem pelas bordas dos pratos)".


Café com pupunha:
prazer genuinamente paraense
 Mas preciso fazer uma ressalva: uma das dicas inclui "pupunha" na lista de palavras proibidas nos cardápios descolados. Mas isso não é justo com os paraenses. O problema é que, como a gastronomia paraense é, sabidamente, uma das melhores do mundo, muita gente tentou se valorizar usando os nossos ingredientes e pode ter extrapolado. Mas não podemos punir a pupunha por causa disso.
Pupunha é coisa nossa, popularíssima, de se comer tirando a casca com os dentes, rebatendo com um cafezinho preto.
Tá a fim?

14 comentários:

Francisco Rocha Junior disse...

Ah, amigo, nem tanto ao mar, nem tanto à terra...
Assim como pode ser exagero levar ao extremo a designação quase química (ou alquímica) de pratos na cozinha sofisticada, é um evidente exagero querer comparar o grau de complexidade e refinamento culinários exigidos para preparar uma feijoada ou um magret de canard avec de la sauce de champignons du Midi.
Ambas as cozinhas, a raffinée e a caseira, têm lugar no paladar dos bons comedores (no sentido glutônico, bem entendido). Basta não incorrermos no radicalismo. Ou, por outra, basta incorrer no radicalismo de gostar e provar de tudo. Afinal, como costumo dizer, gosto não se discute; amplia-se.
Um último comentário: ultimamente, todo mundo que se pretende iconoclasta tem usado de um estilo irônico-de-crônica-de-final-de-revista (que, inclusive, adora o uso de palavras compostas ou expressões separadas por hífens, como a que acabei de usar); uma linguagem meio engraçadinha, meio descolada, pretensamente coloquial, que, na verdade, esconde uma senhora falta de estilo, como no caso deste texto da Folha. Isso, sim, é um saco.
Abraços.

Yúdice Andrade disse...

Amigo, eu até gosto da culinária francesa. Do sabor, bem entendido, não das porções. E fico feliz em saber que esse estilo degustação com preço de prato principal está sendo revisto por muitos restaurantes.
O cerne da postagem não é exaltar este ou aquele tipo de comida, até porque esse é um campo em que a expansão vale muito mais, como bem destacaste. A minha intenção foi apenas festejar a revisão do que é considerado como sofisticado. Sem defender o texto, ressalto ainda que ele teve o senso crítico de manifestar seu receio de que se faça o caminho inverso e uma pessoa passe a ser criticada por não gostar, p. ex., de dobradinha.
Realmente acho que a intenção do texto era mais lúdica e assim o tomei. Mas fiquei muito preocupado com a alusão às expressões-cheias-de-hífens, porque costumo usá-las.
:(

Francisco Rocha Junior disse...

Hahahaha... meu caro, teu texto é muito bom. Eu não o incluiria nestes textinhos-metidos-a-engraçados-e-cheios-de-hífens que campeiam por aí.
Abs.

Luiza Duarte Leão disse...

Também fiquei preocupada com a crítica aos textos engraçadinhos com linguagem coloquial. Acho que eu faço isso de vez em quando...

Ana Miranda disse...

Eu gosto mesmo é do popular "arroz com feijão, bife, batata frita e salada"!!!
Ador massas e é claaaaaaaaaaaaaaro, uma boa feijoada.
Não sou mineira, mas moro aqui e acho a culinária mineira uma das melhores do Brasil!!!

Francisco Rocha Junior disse...

Luíza, sou teu leitor assíduo e posso te garantir que não estás nesse rol.
Aliás, vocês estão subindo demais meu ibope! Eu não posso ser levado tão a sério!

Aline disse...

Yúdice,
Confesso que adoro uma comida afrescalhada (kkkkkkkkkkkk!!!)!!! Mas, pra mim, nada substitui um bom prato de picadinho com feijão preto, arroz e batata frita! Ou - concordando com vc - uma boa pupunha, arrematada com um cafezinho delicioso.
Aliás, ontem mesmo eu e Ramon fizemos uma deliciosa sessão de pupunha em casa - culpa do João, que ainda nem chegou e já tem a costa larga!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!
Bjo grande!
Aline Bentes.

Anônimo disse...

Parecido com um conhecido, que veio se gabando ao dizer que foi a uma festa onde serviram bolo com raspas de ouro. Perguntei a ele quais nutrientes continha o outro. Não soube me responder…

Alexandre

toniachalu disse...

Caro Yúdice, acabei de ler esta sua postagem e, portanto, ainda não li a reportagem da Iara. Mas pode ser que ela tenha se referido ao palmito pupunha e não à nossa velha e deliciosa pupunha.
Será que é isso ou viajei?

Luiza Duarte Leão disse...

Francisco, que surpresa boa ter você como meu leitor! Adoro seus textos no Flanar e acho, inclusive, que deveriam ser mais frequentes (leitores se tornam exigentes!). Acredite, se subimos o ibope, é porque o temos em alta conta!

Anônimo disse...

Gostei da parte que fala que o prato deve estar com 85% de seu espaço tomado pela comida, pois as vezes a gente pede um prato e o tal do "filé" vem com a espessura e o tamanho de uma hóstia, e na sobremesa o pedaço de queijo é tão pequeno que o garfo não consegue espetá-lo.

Kenneth Fleming

Yúdice Andrade disse...

Francisco, acho que eu e Luiza estamos aliviados.

Mas ela é meio pesada, não, Ana? A nossa aqui também fica longe das 5 estrelas no quesito saúde!

Receita bem brasileira, Aline. Polyana adora picadinho com banana. Sem enfeites: só descasca a banana e corta as rodelas no prato.
Quanto às costas largas do João, é assim mesmo. Ele ainda vai ditar muitas regras antes de nascer, mesmo sem saber!

Ele não saberia dizer nem o gosto, Alexandre. O tal ouro comestível é um pozinho jogado por cima do alimento, do qual não se sente gosto algum, só o da própria comida. Comer ouro já é uma ideia repugnante em si mesma, mas ainda por cima é um despropósito.
Como sempre, foste educado. A minha pergunta teria a ver com o aspecto final da digestão do ouro.

Tonia, no texto ela fala apenas em "pupunha", como palavra proibida nos cardápios, por isso não estou certo de que se referisse ao palmito.

Já tive uns tantos aborrecimentos desse tipo, Kenneth. E olha que nem foi em restaurantes franceses. Curiosamente, aqui em Belém, no La Vie en Rose, os pratos são muito justos: suficientes para alimentar uma pessoa que coma o correto, sem exageros. Eu e Polyana gostamos muito de lá.

Francisco Rocha Junior disse...

Luíza, obrigado. Fiquei lisonjeado. Se passares por lá, verás que tenho voltado a postar com mais frequência.

Yúdice, amigo, o alívio eu creditarei à gentileza de vocês.

Abraços em ambos.

caio disse...

Nossa, tenho que concordar. Apesar de um preço sedutor, acabei de desistir de efetuar uma compra coletiva justamente porque o prato principal encontrava-se (bem) longe da porção que descrita como minimamente razoável. A carne parecia o acompanhamento do risoto, e não o contrário...

As outras frescuras exemplificadas deviam se restringir aos vinhos; e olha que adoro o gosto e o bem-estar que fica, mas odeio quem vem me falar em diferença que faz 0,00000000598583 graus a mais ou a menos na temperatura entre um vinhedo do Vale Nevado e outro em Languedoc-Roussillon...