sábado, 5 de fevereiro de 2011

Somente entre os iguais

Pouco mais de uma hora e meia depois da minha postagem sobre o Facebook (a imediatamente anterior a esta e que você deve ler antes), o cara que sempre dá um novo e melhor significado aos meus textos, André Coelho, me honrou com mais esta excelente colaboração:

A meu ver, os irmãos Winklevoss tinham toda razão. Nos EUA, a febre era o MySpace, o Friendster etc., quando surgiu o Facebook, que estava associado à elite universitária e que, por isso mesmo, de repente se tornou um diferencial de status. No Brasil, a febre era o Orkut, que, no seu início, só podia ser acessado mediante convite e estar nele também era um fator de status. Quando ele se popularizou, tornando-se, numa feliz expressão do twitter, "o baile funk" da internet, em que todo tipo de gente pode ser encontrada, eis que surge o Facebook como alternativa "civilizada", onde a pessoa da classe média encontra aquelas pessoas com quem ela sairia, a cujos aniversários ela iria, com quem ela falaria se encontrasse na rua. Lá ela não vai ler, com caracteres bizarros e os mais assustadores erros de português, que "Sua inveja faz o meu sucesso", que "É fácil falar de mim, difícil é ser eu" ou "Solteiro, sim, sozinho nunca", e coisas do tipo. Pelo menos por algum tempo. De repente, o Facebook se tornou a Wandenkolk, para não dizer o Leblon ou a Vila Madalena da grande Cosmópolis virtual, o lugar em que eu não vou ver e posso fingir que não existem exatamente aquelas pessoas que são invisíveis também na minha cidade, no meu país, aquelas pessoas cuja falta de educação, de estilo e de status me ofendem pessoalmente, aquelas pessoas que eu quero deixar no gueto, na favela, na invasão que eu agora considero que é o Orkut. Pelo menos até que os invisíveis se tornem visíveis também nesse novo espaço e me obriguem a buscar um novo espaço privado e bem guardado, um Atalanta ou um Greenville em que eu me sinta seguro com os meus de novo. Por isso, os irmãos Winklevoss nunca tiveram tanta razão. Eu uso o Facebook, porque estar numa rede social é estar onde as pessoas que você conhece estão e onde você pode saber delas, manter contato com elas, ver suas fotos e seus recados. Mas sei que numa rede social virtual, assim como numa rede social real, status e preconceito andam de mãos dadas e a suposta democratização da internet só funciona para quem fecha os olhos para a formação de elites e círculos virtuais restritos. As pessoas que usam o Facebook são, em sua maioria, as mesmas que só se reúnem com seus iguais e que banem qualquer incômoda diferença para trás das cortinas de seu mundo cor-de-rosa. Não seria de esperar que fizessem diferente quando estão on line.


André, minha dívida contigo já é impagável.

15 comentários:

André Coelho disse...

Obrigado pelo destaque. Eu, sinceramente (e apesar do que escrevi), espero que você entre logo no Facebook. É onde estão os amigos, os colegas de trabalho, os alunos e até os parentes. Não adianta resistir a isso, e você bem que seria uma presença bem vinda na lista de pessoas cujos recados e fotos vejo diariamente. O Orkut não está morrendo, está apenas se tornando o território de outras camadas sociais. É comum ver no Twitter e no Facebook a expressão: "Maldita inclusão digital" ao lado de algum link que leva ao que se considera ser uma demonstração de ignorância, de mau gosto ou de pobreza no Orkut. Há inclusive pessoas que culpam o Plano Real e o Bolsa-Família por terem "estragado" a internet. Outra dia li no Facebook o seguinte: "O Facebook já está começando a apresentar os mesmos problemas que o Orkut. Consequência de deixarem entrar qualquer um, especialmente esses tipinhos que só causam vergonha alheia. Por que não ficam lá no Orkut?". Qualquer semelhança com um comentário que se ouviria num barzinho da Doca não é mera coincidência.

Yúdice Andrade disse...

No fundo, sei que é apenas uma postergação, André. Mais cedo ou mais tarde vou aderir. Tanto que não deletei o último convite que recebi. Mas confesso que fiquei um pouco chocado com o fato de ter recebido vários convites, mas não de minha esposa, que já pertence à rede há tempos. Magoei...
Esses comentários que mencionas são escandalosos e opressivos, mas não me surpreendem nem um pouco. A Internet é um espaço onde as pessoas se revelam muito mais do que pensam. E a natureza humana nunca para de me amedrontar.

Luiza Duarte Leão disse...

Incrível mesmo como o André consegue materializar o sentimento e o pensamento das pessoas. Enfim, as razões para o crescimento do Facebook no Brasil são essas daí, não tenho nada a acrescentar.
Eu me rendi ao FB, mas também não gosto de ter várias contas em redes sociais, então, simplesmente tirei meus dados da conta do Orkut (não exclui porque, sei lá, eu posso querer voltar um dia e teria que adicionar os amigos de novo! haha).
As razões para a minha "saída":
1) A rede não estava cumprindo o seu fim, pois quase nenhum dos meus amigos a usava ou atualizava com frequência;
2) O visual do site ficou muito poluído e foram feitas muitas alterações que, na minha opinião, dificultam a navegação - eu não conseguia excluir algumas atualizações do meu perfil, por exemplo, e isso me irritava. O FB tem um layout simples e fácil - e, consequentemente, mais elegante;
3) Toda semana eu recebia dezenas de recados com propaganda de festas que não me interessam e solicitações de amizade de perfis de bares, boates e restaurantes, como se eu tivesse criado minha conta para receber publicidade indesejada;
4) Podem até chamar de elitismo, mas eu me ofendo pessoalmente com as frases citadas pelo André, como "sua inveja faz o meu sucesso", mas não a atribuo a uma classe social específica - há idiotas presunçosos por todos os lados e alguns já me adicionaram no FB também, mas o site dificulta esse tipo de coisa, que geralmente fica na descrição que a pessoa faz de si mesma no Orkut, função quase inutilizada no FB, por se encontrar em uma página a parte dos dados que realmente importam de um usuário - fotos e recados!
Dito isso, vou fazer coro à torcida do André para que você entre logo na rede e se inclua entre nossos amigos virtuais! :)

Luiza Duarte Leão disse...

Ah, sim, o FB ainda permite integração com outras redes, como o Twitter e o Blogger, por exemplo. Eu quase não atualizo o FB propriamente dito, mas publico lá quando faço postagens novas no blog - o que aumentou meu número de acessos - e tenho um link direto com minha conta no Twitter, que faz com que tudo o que eu escreva lá seja lido pelos meus amigos do FB, o que eu não sei se é uma coisa boa para eles! haha

Breno Peck disse...

Não é irônico que um texto que critique o preconceito seja também preconceituoso?

caio disse...

Eu já tinha lido algo nesse sentido, embora o conteúdo não fosse tão abrangente e claro. Acho que em alguma Superinteressante.

Como conheci a ferramenta já popularizada mundialmente, eu não tinha muita noção de como ela foi criada até ver o filme. Tenho ela há dois anos, por insistência de dois amigos. Eu era displicente com a coisa e muito provavelmente eu só daria maior atenção após ver o filme, em novembro ou dezembro, se não fosse uma viagem à Argentina meses antes disso, em junho... desde então comecei a usar mais para manter contato com os amigos que fiz por lá - eles não conheciam o orkut; só tinham esse rede.

Aos poucos, fui tomando gosto pela coisa, até porque o orkut não colabora. Não pelo público (falando apenas por mim), mas pela própria ferramenta. É incrível que quanto mais eles alteram a versão, pior fica. Lembro com saudades daquele template 2005-2007. O atual é pesadíssimo; continuo usando o de 2007-10. Eu já estava enjoado do orkut desde 2008, 2009 - tanto que minha conta atual é seleta, bem longe dos 400 e tantos "amigos" que cheguei a reunir na anterior, dos quais falava regularmente com apenas uns quinze. O mantenho por ainda ver necessidade dele, seja para manter contactado com os amigos, seja para acompanhar os fóruns que participo lá. É justamente por causa dos fóruns que eu me vejo continuando a usar, ainda que raramente, o orkut, mesmo que todos os meus amigos ali migrem para o facebook - o que não deve demorar.

Muitas das atualizações exibidas em feed também são de "bobagens demais", como quem virou amigo de quem, quem entrou em comunidade tal... por sinal, algo que copiaram do Facebook - onde também acho desnecessário.

No "face", é ainda pior, pois nem os recados escapam da visão alheia de todos os amigos em comum com o destinatário; ao menos, existe lá uma forma privada de mensagem. Por alguma razão, parece ser que é nisso que reside a "graça" para a maioria dos usuários lá; dá para se ver ali, pelo menos, muito mais interação virtual entre as pessoas do que no orkut, e dessa parte eu não reclamo; a nossa turma da faculdade, pelo menos, tem se comunicado em rede como nos tempos em que nossa comunidade no orkut, hoje mofando, estava recém-criada...

Meio confuso o meu relato, eu sei. Hehe. Ainda acrescento outra metáfora, mais pobre, às do André: orkut é um Iguatemi. Já foi o mais requisitado pelos endinheirados. Aí veio o Boulevard, com consumo restrito no início e se popularizando nesses últimos tempos (leia-se: inauguração do cinema). O hipotético Bosque Belém parece que demorará a chegar; poucos conseguem, com isso, imaginar algo que venha a substituir o Boulevard.

Yúdice Andrade disse...

André e Luiza, suas manifestações estão me levando a decidir ingressar, de uma vez. Agradeço a acolhida.

Caio, realmente as coisas ficam mais fáceis quando você já conhece a coisa em pleno funcionamento. Aposto que a tua geração nem pensa na vida sem celular, p. ex.

Breno, se a postagem é preconceituosa, não sei. Mas não me preocupo, porque a proposta do blog para 2011 é retornar aos seus primórdios e fazer menos concessões. Como todo ser humano, tenho minhas marras e perversidades. Simples assim. O texto era uma crítica, não uma conclamação à virtude.

André Coelho disse...

O que seria esse retorno aos primórdios do blog?

Breno Peck disse...

Deixa eu ajudar, amado mestre: é preconceito sim. É necessário condescender e considerar que o Facebook é simplesmente muito melhor e mais eficiente que o orkut.

Reconheço sim que há o tipo de motivação preconceituosa descrita pelo André Coelho. Mas simplificar dessa maneira não explica a transição. Se fosse por isso o Twitter -- com "maldita inclusão digital" aos borbotões -- também seria uma plataforma em abandono e em queda de popularidade inclusive entre os mais abastados.

Palavra de quem já perdeu (perde) mais tempo que deveria com estas brincadeiras.

Jean Pablo disse...

Confesso que usei bastante o orkut para 'promoção' pessoal.

No entanto hoje, ele se limita apenas como forma de redução de tempo gasto com notícias, afinal consigo acessar comunidades que reúnem diversas notícias.

Resisti bravamente ao Facebook durante muito tempo. Acabei fazendo um perfil, no entanto, por ignorância ou talvez por não ter mais paciência com "rede sociais" no qual as pessoas expõem uma felicidade artificial eu acabei desativando minha conta.

Yúdice Andrade disse...

André, tu te lembras do Saraiva, aquele personagem do Francisco Milani? Pois é. Era meu ídolo. É mais ou menos essa a proposta primordial do blog.

Ah, então eu tenho preconceito com o Facebook, por não o reconhecer como melhor ao Orkut? Complicado, porque nunca o acessei, então não tenho como fazer a avaliação. Pensei que a crítica se dirigia ao meu modo de ver os usuários do Facebook, mas essa seria uma crítica complicada, simplesmente porque não emiti opinião específica sobre isso.
Quanto ao Twitter, ao contrário do que afirmas, seu sucesso se explica, pensamos eu e um monte de gente, a uma sociedade preguiçosa e limitada, que cabe em 140 caracteres.

"Promoção pessoal", Jean? No final das contas, talvez a maioria das pessoas tenha feito exatamente o mesmo, variando um pouco os objetivos.
Tudo pronto para a formatura?

Bernardo Pereira disse...

Caro Yúdice,
também resisto ao facebook. Até hoje não fiz uma conta, apesar de amigos meus já terem dito algo como:"agora o papo é o facebook".
Não fiz, pois o orkut, até o momento, satisfaz minhas necessidades. Acho desnecessário outra rede social. Esta é a razão de não ter twitter. Ô coisinha inútil, na minha opinião.
Apesar disso, sei que se meus amigos saírem do orkut, possivelmente migrarei também. Não pode existir rede social sem um 'social', e da mesma forma que não gostaria de ver meus amigos migrando de rede, creio que eles também não, entao tenho mais um motivo para não mudar, e continuar com o orkut.
O que o André falou é verdade: as diferentes classes sociais não gostam de se misturar, entao a classe média muda para o facebook, enquanto que o "povão" fica no orkut. Acontece que da mesma forma, os mais "pobres" querem se igualar aos mais "ricos" e irão entrar no facebook. O que acontece? A "maldita inclusão digital" mencionada anteriormente, e todas as expressões citadas pelo André. Contudo, obsereve o seguinte: se na rede de amigos só entra quem é aprovado pelo usuário, ou ele aceita e (suponho)é amigo, ou ele não aceita e não é amigo do indivíduo. Logo, a irritação da pessoa com expressões como "eu pego, mas não me apego" e similares, se deve a postagens de amigos seus, ou a visualização de comunidades deste tipo com grande número de seguidores. Quando colocam mensagens como "maldita inclusão digital", por motivos como esses, vejo uma discriminação entre classes sociais (da mais rica, para com a mais pobre), ou hipocrisia, já que o crítico possui amigos que escrevem assim. E aqui a comparação do André se encaixa bem, ao citar os bares da wandenkolk, como reduto dos mais abastados, sendo o facebook. O movimento é cíclico: aumentará o nº de pessoas no facebook, e quando o facebook estiver 'lotado', as pessoas procurarão fugir da confusão e buscarão um local mais "tranquilo". Já vi situações até engraçadas, de boates querendo comprar o orkut da pessoa, para mandar a propaganda. Se me lembro bem, a mensagem era mais ou menos assim:" Para que abandonar o orkut, se você vai logo fazer uma conta do facebook? Nós compramos seu orkut. Interessado entre em contato".
No mínimo, cômico, mas que mostra claramente alguns dos aspectos citados nas postagens.

Abração e bom retorno hoje,
Bernardo Pereira

Breno Peck disse...

Parece que esse "eu e um monte de gente" está equivocada, Yúdice.

E volto a teclar o botãozinho de que suas afirmações são preconceituosas. Mas não encare o adjetivo de forma extremamente negativa. Falta-te afinidade, apenas, com as ferramentas -- ferramentas, aliás, nunca têm culpa da mediocridade de quem as usa -- como bem admitiste, a bem da verdade.

Vale aprender filtrar informações e pessoas. No fundo não é lá muito diferente de se ter um blog. Ou uma vida.

Talvez teus companheiros de Flanar possam te ajudar nessa empreitada.

Breno Peck disse...

Queria adicionar um post script. Que péssima impressão passa o cara que entra na casa dos outros só pra reclamar da janta, Yúdice. Bem, sou leitor do blog e gosto daqui (está no meu RSS; escondido, mas está). Mas infelizmente tenho o péssimo hábito de só me manifestar quando discordo.

Yúdice Andrade disse...

O mundo nao se cansa de produzir maluquices, não, Bernardo? Compra de Orkut: eis aí algo que nunca imaginei.

Já tivemos uma divergência anterior justamente por conta dessa relação de geral e específico, Breno. Só acho que não deves tomar as coisas de modo tão pessoal, senão como sobreviver às piadas de advogado?
O Twitter, p. ex., pode ser uma ferramenta valiosa, como naquela conta famosa @transitobelem, que nos ajuda a fugir de engarrafamentos. Ela é útil para jornalistas, acho que para o comércio também, etc. Mas o cidadão comum que usa para escrever coisas como "cheguei da escola", "estou com sono", "caguei", etc. Qual a utilidade disso? No máximo, favorece uma superexposição vazia. Para esses casos, mantenho a minha crítica.
PS - Vou botar a janta no micro-ondas.