sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sem o diferencial

Uma das cenas mais interessantes do filme A rede social, na minha opinião, mostra os irmãos Winklevoss e Dyvia Narendra contratando Mark Zuckerberg para criar uma rede social para eles. Expostos os termos do pedido, Zuckerberg pergunta qual seria o diferencial da rede, se ela, enquanto conceito, não seria muito distinta de outras, já existentes. Agastado, um dos gêmeos responde:

— Harvard.edu!

Com isso, deixa claro que o essencial era a tal rede funcionar como um clube privê para a elite intelectual estadunidense, sediada na celebérrima Harvard. Era a ideia original, mas não foi assim que as coisas permaneceram. Aliás, o Facebook não se tornaria uma empresa altamente lucrativa se permanecesse restrita ao universo acadêmico, mesmo que da poderosa Harvard, ainda mais considerando que Zuckerberg não quis abrir o capital e nem torná-la acessível a qualquer tipo de publicidade.
O fato é que, hoje, qualquer pé rapado pode ter uma conta no Facebook e é exatamente o que está acontecendo. Graças a isso, o outrora onipresente Orkut está virando uma espécie de rede social de pobre, enquanto as coisas acontecem de verdade no Facebook. De repente, começa a ficar claro para mim por que tanta gente que conheço, e sei que navega muito na Internet, não tem atualizado seus perfis no Orkut. Até uns meses atrás, quando acontecia de tirar fotos com amigos por aí e pedir para me mandarem por e-mail, respondiam-me que elas seriam publicadas no Orkut. Copiei várias fotos assim. Esta semana, contudo, uma ex-aluna me disse, com naturalidade:

— Tens Facebook? As fotos da formatura estão lá.

Estou convencido de que esse fenômeno tem relação direta com o sucesso de A rede social. A sofisticação original do Facebook seduziu gente por toda parte e é mais quem quer se sentir perto de Zuckerberg. Se Orkut Büyükkokten não tivesse batizado sua criação com o próprio prenome, já estaria num negro esquecimento.
Faz tempo que recebo convites para aderir ao Facebook. Sempre ignorei todos, por um único motivo: não quero ter conta em diversas redes sociais. Sou econômico, gosto de parcimônia. Se tenho conta no Orkut e ela atende aos meus objetivos, não preciso de outra. Acho ridículo gente que tem conta no Orkut, Facebook, Badoo e sei lá mais quantas porras dessas e convida as mesmas pessoas para todas elas! O cara precisa de minha amizade em quantos mundos virtuais, Jesus Cristo?!
Some-se a isso que há muito tempo tornou-se raro eu acessar o Orkut. Nunca me desliguei porque ainda é o meio pelo qual reencontro antigos amigos, mando mensagens de aniversário, enfim, acompanho de longe a vida de pessoas queridas. Não vejo vantagem em criar um segundo perfil que raramente será utilizado. A menos, é claro, que no final das contas os proveitos que ainda tiro do Orkut acabem de vez e não me reste alternativa senão aderir a um mundo que deveria ser majestático como Harvard, mas que hoje é apenas mais uma farinha de feira.

3 comentários:

André Coelho disse...

A meu ver, os irmãos Winklevoss tinham toda razão. Nos EUA, a febre era o MySpace, o Friendster etc., quando surgiu o Facebook, que estava associado à elite universitária e que, por isso mesmo, de repente se tornou um diferencial de status. No Brasil, a febre era o Orkut, que, no seu início, só podia ser acessado mediante convite e estar nele também era um fator de status. Quando ele se popularizou, tornando-se, numa feliz expressão do twitter, "o baile funk" da internet, em que todo tipo de gente pode ser encontrada, eis que surge o Facebook como alternativa "civilizada", onde a pessoa da classe média encontra aquelas pessoas com quem ela sairia, a cujos aniversários ela iria, com quem ela falaria se encontrasse na rua. Lá ela não vai ler, com caracteres bizarros e os mais assustadores erros de português, que "Sua inveja faz o meu sucesso", que "É fácil falar de mim, difícil é ser eu" ou "Solteiro, sim, sozinho nunca", e coisas do tipo. Pelo menos por algum tempo. De repente, o Facebook se tornou a Wandenkolk, para não dizer o Leblon ou a Vila Madalena da grande Cosmópolis virtual, o lugar em que eu não vou ver e posso fingir que não existem exatamente aquelas pessoas que são invisíveis também na minha cidade, no meu país, aquelas pessoas cuja falta de educação, de estilo e de status me ofendem pessoalmente, aquelas pessoas que eu quero deixar no gueto, na favela, na invasão que eu agora considero que é o Orkut. Pelo menos até que os invisíveis se tornem visíveis também nesse novo espaço e me obriguem a buscar um novo espaço privado e bem guardado, um Atalanta ou um Greenville em que eu me sinta seguro com os meus de novo. Por isso, os irmãos Winklevoss nunca tiveram tanta razão. Eu uso o Facebook, porque estar numa rede social é estar onde as pessoas que você conhece estão e onde você pode saber delas, manter contato com elas, ver suas fotos e seus recados. Mas sei que numa rede social virtual, assim como numa rede social real, status e preconceito andam de mãos dadas e a suposta democratização da internet só funciona para quem fecha os olhos para a formação de elites e círculos virtuais restritos. As pessoas que usam o Facebook são, em sua maioria, as mesmas que só se reúnem com seus iguais e que banem qualquer incômoda diferença para trás das cortinas de seu mundo cor-de-rosa. Não seria de esperar que fizessem diferente quando estão on line.

Yúdice Andrade disse...

Preciso, como sempre. Vou destacar. Abraço.

Ana Miranda disse...

Eh...eh...eh...
Então eu sou menos que "pé rapado", pois nem orkut tenho.