segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Um novo mundo do trabalho

Nos Estados Unidos, qualquer jovem pode trabalhar como babá, servindo mesas ou prestando serviços com uma boa dose de trabalho braçal. Isso é natural para os americanos e, por si só, não produz nenhum demérito. Faz parte da cultura de um país onde cursos universitários são muito caros, assim como empregados domésticos. Por isso, os próprios membros da família cuidam de suas roupas e faxina. Muitas famílias criam escalas de trabalho ou, daquele jeito bem individualista deles, cuidam apenas de suas próprias coisas. Não há mamãe para arrumar roupa de marmanjo.
Enquanto isso, no Brasil, com aquela arrogância própria de gente sub-desenvolvida, trabalhar é vergonhoso. Bonito mesmo é nascer rico, mesmo que às custas dos mais baixos crimes e patifarias. Recurso alternativo válido é enriquecer através de malfeitos de toda ordem, desde que você acabe com grana suficiente para virar socialite. Trabalho é coisa de pobre. Trabalho doméstico, então, nem se fala. Neste país, desprezam-se as empregadas (desde a nomenclatura, já que hoje devem ser chamadas de "secretárias do lar", o que se supõe menos ofensivo) e todos os prestadores de serviços que não exijam formação educacional mais elevada.
Recordo-me que, quando na faculdade, um de nossos professores (um sujeito que não goza da minha simpatia, devo reconhecer), em uma outra turma, soltou um comentário preconceituoso. Disse que determinada coisa (não me lembro mais o quê) era coisa de empregada doméstica. De pronto, despertou a ira de uma aluna, ela mesma uma doméstica, que batalhava ali, na faculdade pública, para ter uma oportunidade de mudar de vida. A moça lhe deu uma lição e o professor não pode reagir, porque mesmo ele sabia que estava do lado errado.
Anos depois, quando já estávamos formados, vi essa mesma moça na TV. Ela aparecia como advogada do sindicato dos trabalhadores domésticos e explicava algumas medidas que estavam sendo tomadas, com vistas a melhorar as condições de trabalho da categoria. Nunca tive qualquer contato com ela, mas naquele dia senti orgulho. Ela se manteve fiel aos seus ideais. Continuava trabalhando pela sofrida classe das domésticas.
Não sei o seu nome nem por onde anda. Mas me lembrei dela hoje, ao ler isto aqui.
Brasil mudando. Será que chegaremos ao dia em que os serviços domésticos serão encarados como uma profissão como qualquer outra?

5 comentários:

Ana Miranda disse...

Reiterando: Adoro quando você faz textos de ordem pessoal.
No fundo, todas as mulheres são "empregadas domésticas", uma minoria conta com a ajuda do marido, mas todas somos.
As mulheres não fazem dupla jornada?

Yúdice Andrade disse...

É verdade, Ana. Mas jornada dupla eu também faço. Afinal, tenho dois empregos. E em pelo menos dois finais de semana rola o supermercado, que eu detesto! No mais, eu também sou o motorista...

Luiza Montenegro Duarte disse...

Os filhos da classe média só podem fazer estágios, na sua área de atuação. Tenho um amigo, estudante de medicina, que conseguiu um emprego à noite, no setor administrativo de um hospital. Apesar da faculdade ser gratuita, ele tinha outras despesas (livros, ajuda em casa, lazer, etc). Os colegas de classe achavam um verdadeiro absurdo ele trabalhar durante o curso, afinal, ele estava estudando para ser MÉDICO, como podia se rebaixar daquela forma?
Isso é Brasil...

Print Point disse...

Não é o melhor texto que eu já li aqui, mas com certeza foi o que me deu mais esperança!

O corpo do ser humano não foi feito para ficar parado, não mesmo!

Vlw Yúdice!

Yúdice Andrade disse...

Luiza, algumas classes são particulamente detestáveis em suas concepções de mundo.

Prime Point, a vida do brasileiro é um permanente jogo de delicado equilíbrio entre as esperanças e as desilusões. Que vençam as primeiras, desta vez!