quinta-feira, 19 de maio de 2011

Estupro como um favor às mulheres feias

A Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República emitiu a seguinte nota em 11.5.2011, a respeito das "piadas" feitas pelo (qual é a profissão dele???) Rafinha Bastos sobre estupro:

A Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) vem a público manifestar sua indignação pela maneira como o “humorista” Rafinha Bastos, da TV Bandeirantes, faz piadas com os temas estupro, aborto, doenças e deficiência física. Segundo a edição desse mês da Revista Rolling Stone, durante seus shows de stand up, em São Paulo, ele insulta as mulheres ao contar anedotas sobre violência contra as mulheres.“Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso [estupro] não merece cadeia, merece um abraço”. Isso não é humor, é agressão gratuita, sem graça, dita como piada. É lamentável que uma pessoa - considerada pelo jornal The New York Times como a mais influente do mundo no twitter -, expresse posições tão irresponsáveis e preconceituosas. Estupro é crime hediondo e não requer, em nenhuma hipótese, abordagem jocosa e banalizada.

Vale lembrar que qualquer mulher forçada a atos sexuais, por meio de violência física ou ameaça, tem seus direitos violados. Não há diferenciação entre as vítimas e, tampouco, a gravidade e os danos deste crime diminuem de acordo com quaisquer circunstâncias da agressão. Assim, a SPM condena a banalização de tais preconceitos e, como organismo que visa, sobretudo, enfrentar a desigualdade para promover a igualdade entre os gêneros, a Secretaria repudia esse tipo de “humor” e qualquer forma de violação dos direitos das mulheres. Humor inteligente e transgressor não se faz com insultos e nem preconceitos. A sociedade não quer voltar à era da intolerância e, sim, dar um passo adiante.

A Ouvidoria da SPM oficiou, no dia 13, o Ministério Público Federal, pedindo que investigue o caso, por entender que Bastos incorreu em apologia de crime, especificamente apologia ao estupro.

É certo que tudo que é demais enjoa. Hoje em dia, forçoso reconhecer, existe uma verdadeira patrulha do politicamente correto que impõe as pessoas uma espécie de dever de ser ético, mediante critérios previamente concebidos que podem não ter sido assimilados pelo indivíduo. E isso, além de muito chato, é artificial. Moralidade imposta não serve de nada, porque dificilmente produzirá bons frutos. Além do mais, a Constituição deste país me concede o direito de ser imoral, se eu quiser. O que eu não posso, todavia, é causar prejuízos a terceiros, o que pode ensejar responsabilidades, inclusive criminais.

Conclui-se daí que estou a favor de Rafinha Bastos, certo? Errado! Grosseiramente errado. Entendo que as pessoas precisam ser responsáveis por seus atos e essa exigência cresce à medida que maior seja a influência exercida sobre terceiros. Eu não sou comunicador de TV, mas sou professor e exerço influência, em alguma medida, sobre meus alunos. Por isso, não posso simplesmente dizer tudo que me passa pela cabeça, seja porque algumas opiniões são estritamente pessoais (e, portanto, envolvem juízos de valor meus, que ninguém é obrigado a seguir), seja porque os jovens precisam de tempo para amadurecer certas ideias.

Não se pode tolerar que o comunicador, prevalecendo-se de sua fama e de um programa de TV de boa audiência, supostamente com fins de fazer humor (e em última análise com fins econômicos, porque esse é o meio de vida do rapaz), diga tudo o que queira, sem se preocupar com as implicações. Eu até acho que quem não sabe brincar deve cair fora do terreiro (no caso, mudar de canal e não encher o saco), mas deve haver um limite. No caso do Danilo Gentili, o limite foi mexer com a endinheirada e altamente organizada comunidade judaica. E no caso de Bastos? Já que os alvos foram mulheres feias (e pobres, claro, porque não existe mulher feia, e sim mulher pobre; estão aí a Zilú Camargo e a Rosinha Garotinho que não me deixam mentir), ele pode simplesmente achar o estupro bacana, sob certas circunstâncias?

E mais: o moçoilo nunca teve conhecimento de mulheres bonitas estupradas? Ou, no entendimento dele, mulheres bonitas estupradas não reclamam?

Eu lamento esse tipo de coisa. Por menos do que isso Ed Motta se retratou e admitiu estar envergonhado. E não podemos ignorar o inolvidável Paulo Maluf e seu "estupra mas não mata".

No final das contas, a maldição foi alguém ter inventado que esse povo do stand up comedy faz "humor inteligente", um dos clichês mais idiotas dos últimos tempos. Eles acreditaram e agora todo mundo que faz esse gênero de humor é inteligente e está um degrau acima das críticas dos meros mortais. Resultado: se acha no direito de "fazer graça" com qualquer coisa, recorrendo à polêmica e ao choque gratuito como ferramentas usuais de trabalho. Honestamente, já cansei dessa gente.

Acréscimo em 8.6.2011:
Aqui a opinião de Gilberto Dimenstein, da qual discordo na parte em que chama Rafinha Bastos de "talentoso".

12 comentários:

Daniel Scortegagna disse...

Rafinha Bastos completamente sem graça.... salve o gênio Bolaños... o resto é resto!

André Coelho disse...

A Gisele Gato concorda inteiramente com você. Eu discordo.

Luiza Duarte Leão disse...

Sobre a piada em si, tudo o que eu queria dizer, disseram aqui (http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2011/05/politicamente-incorreto-nao-e.html).

Sobre o Rafinha Bastos, não conheço seu "trabalho", mas alguém precisa alertá-lo que, ao menos ultimamente, ele tem sido muito infeliz. Ou será que alguém no mundo achou graça do comentário dele, no Twitter, no Dia das Mães ("Dia triste para os órfãos, heim?")?

Yúdice Andrade disse...

Estou perdido, Daniel: também não suporto o Chaves mas, convenhamos, se eu tivesse que escolher entre o Bolaños e essa turma do stand up, acabaria dentro de um barril dizendo "isso! isso! isso!"

Perdão, André, mas a Gisele concorda e você discorda do quê, exatamente?

Não conhecia essa, Luiza. Pergunto-me como se sentiria alguém que ainda estivesse de luto pela morte de sua mãe e, num dia de sentimentos intensificados como esse, tivesse que aturar uma "piada" desse tipo. No fundo, é um tipo de humor que sobrevive da insensibilidade com o mundo ao redor.
Lerei o texto que me foi indicado.

Maíra Barros de Souza disse...

Concordo plenamente, Rafinha Bastos é exemplo de piada que perdeu a graça. A nova geração de stand up comedy faz parecer isso mesmo, que podem falar o que quiserem por possuirem qualquer tipo de inteligência superior. Mas o stand up não precisa ser ofensor e prepotente assim, temos como um belo exemplo o talento de Seinfeld (de quem sou grande fã), que é pioneiro nesse ofício e sabe exercê-lo sem agredir tudo e todos, criticando na medida certa este mundo e sendo, de fato, engraçado.

Abraços.

André Coelho disse...

A Gisele Gato concorda que esse humor "politicamente incorreto" é sem graça e estimula o que há de pior nas pessoas, por isso mesmo devendo ter algum tipo de freio. Ela mesma publicou no perfil dela do facebook aquele texto que a Luíza indicou no comentário e isso gerou uma discussão feroz entre mim e ela. É que eu sou de opinião totalmente contrária a essa crítica. Acho que o humor, desde as sátiras gregas e romandas, passando pelos bobos da corte medievais, pelo ridendo catigat mores etc. é uma forma de arte que deve ser colocada acima dos parâmetros do politicamente correto. Toda sociedade tem consensos normativos sobre o que é aceitável, mas todo consenso normativo tem seus pontos cegos e é preciso que alguém na sociedade esteja autorizado a dizer, de modo irresponsável em sentido ético e jurídico, o que bem entender, acima de tais consensos normativos, acima dos juízos de certo e errado. Isso contribui para a evolução da sociedade. E vejam: Eu não acho que apenas se contribuir para a evolução da sociedade é que o humor deve ser autorizado a dizer o que bem entender de modo irresponsável; o que eu acho é que ele precisa desta carta branca já previamente para que, ao lado de muita bobagem sem valor que certamente serão ditas a maior parte das vezes, algumas coisas úteis, sagazes e férteis sejam ditas de vez em quando. Para que o bobo da corte possa dizer que o rei é autoritário, que a rainha é adúltera, que os conselheiros são puxa-sacos, que os delegados são corruptos, ele precisa estar "fora do mundo", habitando uma região social em que não se teme perder a cabeça, em que se pode dizer o que quiser porque, ao contrário dos outros súditos, que têm que ser cidadãos responsáveis, pessoas respeitáveis, ele não, ele é o bobo, nada o tira dessa condição eternamente parva e irresponsável de quem diz para fazer rir, mas que, para fazer rir, diz o que ninguém tem coragem de dizer. Não podemos perder isso, perder isso é perder o contato com uma herança cultura que os antigos nos legaram e com uma lição que a história nos deixou de que são apenas aqueles que são "irresponsáveis" que estão em condição de dizer, ao lado de muitas besteiras lamentáveis, algumas das verdades que ou ninguém tinha coragem para dizer ou ninguém tinha olhos para ver. É por isso, Yúdice, que eu defendo a posição contrária à da sua crítica.

Yúdice Andrade disse...

Não posso opinar sobre o Seinfeld, porque nunca vi nada dele (tenho aversão à comédia feita por americanos), mas realmente acredito que o stand up é uma boa ideia que se perdeu, ao menos aqui no Brasil.

André, pode parecer contraditório com o que escrevi, mas eu adoro o politicamente incorreto. Sempre gostei de humor negro e nos divertíamos contando piadas de leprosos. Hanseníanos, não: leprosos! Piadas atacando religiões são outro filão que acho magnífico. Jesus Cristo já penou muito na minha mão.
Mas uma coisa é eu dizer que mulher deve apanhar numa rodinha de amigos, com as pessoas rindo, comendo, bebendo, fazendo troça de tudo. Outra coisa é eu fazer isso num ambiente no qual eu possa ser uma influência.
Acredito ter entendido o teu ponto e, se assim for, realmente precisaríamos dos incorretos na TV e em outras mídias, para chacoalhar as mentes das pessoas. Nesse ponto, não discordo de ti. Penso, p. ex., na "TV Pirata", que frequentemente colocava piadas sobre bater em mulher e sobre maus tratos com crianças. Vendo hoje em dia, eu me surpreendo com a audácia deles. E depois de dou conta de que, naquela época, era mais fácil abusar desse jeito. Então qual é a diferença entre um Rafinha Bastos e a "TV Pirata"? Só o fato de que eu gosto desta e não daquele? Claro que deve haver mais do que isso.
O fato é que o mundo mudou e, hoje, nem tudo rende risos. Precisamos nos adaptar a isso, também, ainda que o mundo fique mais chato. Sobretudo quando por trás de tudo esteja, talvez, tão somente a intenção de ganhar dinheiro e não de transformar a linguagem da TV. Esse é um mérito que a "TV Pirata" teve e que o CQC e seus bobocas jamais terão.

Paula disse...

Super apoiado, Yudice!
Esse pessoal de comédia em pé é um saco!! Não vejo a menor graça nisso...Acho que não tem nenhum que se salve!

Um abraço

Ana Paula

André Coelho disse...

Gostei muito da sua resposta. Se concordarmos que: 1) um deles é um humor politicamente incorreto e inteligente e de qualidade; o outro é um humor politicamente incorreto e não inteligente nem de qualidade; 2) é preciso haver espaço aberto para o segundo para que possa, de vez em quando, surgir o primeiro - então teremos chegado a um acordo em nossas opiniões.

Abraço!

Lilica disse...

Yúdice, qdo citaste a Zílú e a Rosinha como mulheres feias, podes ter ofendido as duas. Afinal de contas, filosoficamente, o que é beleza? Até mesmo a beleza plástica é discutível. No mais, concordo contigo. O CQC do Brasil tá ficando chato, porque todos os integrantes, sem execeção, se consideram "iluminados demais, inteligentes demais", e, logicamente, estão in-su-por-tá-veis.

. disse...

Por este e outros textos que teu blog está entre os meus favoritos!

Yúdice Andrade disse...

Ana Paula, eu também não saberia citar o nome de nenhum que se salvasse.

Felizmente, André, nós sempre conseguimos chegar a um bom consenso!

A questão sobre a beleza é muito profunda, Lilica. Terei que deixá-la para os filósofos. Para esclarecer, citei os nomes de Zilú Camargo e Rosinha Garotinho porque, certa vez, recebi um e-mail de humor mostrando o antes (pobre) e o depois (rica) de várias mulheres. As duas se destacavam em relação às demais. Admito, porém, que sem saber disso, quem lê pensa que foi apenas uma agressão gratuita.

O que é uma honra, Waleiska, em se tratando - o teu - de um dos blogs mais lidos do Estado.