quinta-feira, 26 de junho de 2008

Contra a restrição ao consumo de álcool

Um comentarista que se assina Paulo Santos enviou um texto que pode ser lido na íntegra na caixa de comentários da postagem imediatamente anterior. Expressa sua indignação com a nova lei que pretende estabelecer a alcoolemia zero para os motoristas brasileiros. Pinço alguns pontos para deixar minhas impressões:

"O brasileiro, agora, não poderá mais beber um drinque, um copo de vinho ou qualquer outro tipo de bebida alcoólica. Isso é um absurdo, é um desrespeito ao cidadão brasileiro, é cercear o direito de liberdade de um povo."
Inverídico. O brasileiro pode continuar tomando sua geeeeeeeee-laaaaaaaaaaaa-daaaaaaaaaa, sua zeca-feira e seu pega-leve. Pode beber até cair, se quiser. Só não pode dirigir depois. Este é um gritante sofisma. Afinal, à falta de argumentos consistentes, tenta-se — como no triste caso do referendo contra o desarmamento — mexer com os brios do povo, supostamente lesado em algum direito. E qual seria esse direito? Dirigir com a atenção e a psicomotrocidade reduzidas? Ah, claro que não. Esqueci que quando eu bebo, dirijo até melhor!

"O Brasil é conhecido como um dos países mais corruptos do mundo. Essa nova lei certamente vai aumentar ainda mais essa fama, pois qualquer motorista (...) flagrado com teor alcoólico no sangue (...) fará de tudo para tentar se livrar da punição (...) usando o famoso jeitinho brasileiro."
Verdade verdadeiríssima. O brasileiro safado vai oferecer suborno e as autoridades brasileiras safadas o aceitarão, se não o tiverem pedido antes. Vai casar a fome com a vontade de comer. Mas qual deve ser a nossa postura? Deixar de enfrentar o que deve ser enfrentado e um nome de uma espécie de combate à corrupção? A corrupção deve, sim, ser combatida, com punições ainda mais rigorosas para quem oferece e quem pede ou recebe propina. A adotar-se a sugestão do comentarista, é melhor acabar com as posturas municipais, com as leis trabalhistas, com o sistema tributário e com tantas outras coisas que, submetidas à fiscalização do poder público, são campo aberto para a corrupção.

"O motorista brasileiro agora não pode mais ir a uma praia, um aniversário ou qualquer festinha e beber sua cervejinha, sob pena de ter uma surpresa desagradável."
Olha o sofisma aí de novo! Confesso que me agasta profundamente essa absurda convicção de que o sujeito só pode ser feliz se encher a cara. Além do mais, a questão não é essa. Se uma praia linda não vale nada sem bebida, se o meu amigo não vale nada a ponto de sua celebração de aniversário só prestar se tiver bebida, vá à praia ou ao aniversário e beba. Mas não dirija. Simples assim.

"A Justiça brasileira deveria punir com prisão os motoristas irresponsáveis que, sob efeitos de qualquer tipo de droga ou álcool, cometam acidentes de trânsito seguido de mortes."
Mas é exatamente isso o que está sendo proposto: a prisão dos motoristas irresponsáveis. E só destes. Mas irresponsável não é só quem atropela a velhinha, e sim também aquele que, por suas más condições físicas ou mentais, expôs a velhinha a um risco real de ser atropelada.

"Segundo um especialista, o motorista que estiver ingerindo 'xarope' ou outro qualquer tipo de remédio feito à base de álcool, e pela infelicidade for flagrado em uma batida policial e se submeter ao bafômetro, certamente será enquadrado na forma da nova lei"
Verdade. Tanto que a própria lei determina que, em casos específicos, deve ser aceita uma margem de tolerância, justamente para evitar o enquadramento de condutores sob o efeito desses medicamentos. A crítica mais pertinente à Lei n. 11.705 é que entrou em vigor sem essa regulamentação, que deve ser feita provavelmente por um decreto do governo federal. Nesse meio tempo, estaremos expostos à má interpretação da norma e à má capacidade de decisão dos agentes públicos. Eis aí uma crítica sensata.

"Eu só queria saber se os deputados, senadores, juízes, ministros e até o presidente Lula ou qualquer outra autoridade de nosso País não vão mais a uma festinha, a uma praia ou a qualquer outro tipo de reunião festiva onde haja bebidas. (...) Claro, certamente eles (os criadores dessa nova lei) têm seus motoristas particulares e podem beber à vontade."
Exatamente! Se eles dispõem de motoristas particulares, obviamente podem beber à vontade, pois não dirigirão depois. É exatamente assim que queremos que seja. E se você não dispõe de um motorista particular, vá de táxi (ou de ônibus). Ou entregue a direção para uma pessoa sóbria. Alternativas existem, para quem quiser.

E para quem achar que nenhuma delas é boa o bastante, só resta uma coisa a fazer: beber para esquecer. E não dirigir depois.

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