quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Fraude, manha, desfaçatez...

"Quem não cola, não sai da escola."


Talvez a forma mais inocente:
será que eu consigo ler alguma coisa?
 Desde que o mundo é mundo, desde que existe a humanidade, existe a desfaçatez, o descaramento, a intenção de se dar bem a todo custo. De certa forma, isso pode ter raízes na luta pela sobrevivência, já que as intempéries, os predadores e a concorrência extrema levavam os nossos antepassadossauros a um individualismo exarcerbado, só comparável ao classe média way of life dos nossos dias. Por isso, talvez a cola seja tão antiga quanto a própria escola.
Ignoro o motivo pelo qual a fraude escolar foi denominada "cola". Só sei que ela corresponde a todo e qualquer procedimento destinado a realizar uma atividade avaliativa fora das regras estabelecidas de aferição de conhecimentos e habilidades, por meio de expedientes clandestinos que dispensam o estudante de se preparar para a dita atividade, revelando os talentos que efetivamente adquiriu1. Isso inclui os procedimentos tidos como inocentes. Creio que o mais elementar de todos seja espiar a prova do colega. Mas dado o seu baixo índice de eficiência e o risco de o colega do lado não querer colaborar (como eu e a menina da foto), o jeito era buscar técnicas diferenciadas, que iam do sofisticado ao mais absoluto patético. Dentre elas, os papeizinhos escondidos nas roupas, nos sapatos, pregados com chiclete embaixo da mesa, vistos através de espelhos, etc.

Malabarismos de todo tipo...
 Um procedimento assim leviano deveria limitar-se a crianças e pré-adolescentes mas, muito pelo contrário, ele tende a se intensificar com o tempo e chega às universidades. Recordo-me de alguns episódios de quando eu cursava Direito na UFPA que nos fazem rir até hoje, p. ex. o borrão que voou por uma fresta da janela e fez nossa colega implorar a um vendedor de bombons que a resgatasse antes que o professor visse do que se tratava. O curso de Direito enfrenta um problema adicional, que é o fato de fazermos provas com consulta à legislação. Assim, as maçarocas (cópias reduzidas) fazem sucesso. Na época dos códigos com sobrecapa, haviam uns palhaços que colocavam livros dentro da sobrecapa e iam fazer prova. Flagrei uma cidadã, certa vez, de longe, por reparar na cor da capa do livro.
Uma professora que, hoje, sente-se pessoalmente ofendida quando um aluno seu cola, em sua época topou participar de uma elaborada engenharia de fraude. Com fama de CDF, aceitou passar cola aos colegas numa prova de marcar. Se bem me lembro, eles estimaram que ela faria a prova inteira em uma hora. Assim, todos acertaram seus relógios e, a partir das 21 horas, a cada cinco minutos, ela passava uma resposta. Os códigos eram coisas como: mexer no cabelo, letra a; coçar a orelha, letra b, e assim por diante. Uma sofisticação danada que ferrou com muita gente. A execução foi boa, mas as provas eram diferentes! Bem feito...

A mais covarde das técnicas.
 Hoje, as preocupações aumentaram bastante e o motivo, como não poderia deixar de ser, é a tecnologia. O terror agora atende pelo nome de smartphone. Com telas grandes, de fácil leitura, e acesso à Internet, mensagens SMS são coisa do passado. Dá para consultar páginas e páginas de cadernos ou de livros. E depois do depoimento de duas ex-alunas (uma se queixando que tirara nota baixa mesmo colando a prova inteira e outra me contando a cola generalizada em sua sala, mesmo entre alunos que sempre respeitei2), eu, que detesto servir de babá e prefiro tratar meus alunos como suponho que um adulto deva ser tratado, decidi me violentar a partir de hoje e exigir a entrega dos celulares durante as provas. Afinal de contas, procuro dar a eles condições de fazer boas provas e isso pode ser obtido com um mínimo de compromisso. Como sempre digo, no final das contas, passar na faculdade é muito fácil; só dá um pouco de trabalho. Não fico no pé de ninguém, deixo passar muita coisa, mas abuso não se pode tolerar.
É incrível ter que me ocupar disso...

1 Credo, que definição horrorosa e confusa!
2 E enfatizando reiteradas vezes: Coloca uma coisa na tua cabeça: todo aluno cola!

6 comentários:

Adrian Barbosa e Silva disse...

Uma possível mitigação do princípio constitucional da presunção de inocência?

Maíra Barros de Souza disse...

Bom, na condição de universitária e sua ex aluna, vou dar meu depoimento sincero sobre o assunto =)
Fui criada por um pai que me dizia desde o pré escolar que colar é uma atitude desonesta como qualquer outra. Não existe mais desonesto ou menos desonesto, é desonesto e ponto. De tal forma, também tenho todas as objeções do mundo a esse tipo de cola dentro de vade mecun e ao uso dos smartphones. Porém, devo dizer que essa famosa "olhadinha na prova ao lado" pode sim, as vezes, não ser uma atitude tão leviana assim, pode demonstrar simplesmente a insegurança do aluno.
E quanto a dar cola...bom, é errado, mas o "principio da camaradagem" (existe isso? rsrs) acaba nos levando a dar cola muitas vezes. Imagine como seria visto pela turma alguem que não desse cola a um amigo?
Concordo com o que o foi dito nesse post, muitas vezes eu fico frustrada com as minhas notas na faculdade, mas pelo menos as considero minhas mesmo. As boas e as ruins.

Abraços!

Diego Ferraz disse...

"Só sei que ela corresponde a todo e qualquer procedimento destinado a realizar uma atividade avaliativa fora das regras estabelecidas de aferição de conhecimentos e habilidades, por meio de expedientes clandestinos que dispensam o estudante de se preparar para a dita atividade, revelando os talentos que efetivamente adquiriu"

captou a essência da cola hehe

Já cheguei a ver um moleque com vade mecum de arame, se dar o trabalho de tirar o arame, digitar toda a matéria em forma de artgos do código, colocar no vade mecum, e recolocar o arame...
Não ia ser mais fácil só estudar?

Yúdice Andrade disse...

Não vejo assim, Adrian. Penso que muitas ações de nossa vida devem ser realizadas mediante procedimentos específicos. É mais ou menos a mesma coisa.

Quisera eu que todas as pessoas pensassem da mesma forma, Maíra. Tentarei ensinar o mesmo a Júlia, mas creio que ela, ao nos ver corrigir provas, no futuro, terá a oportunidade de ver o outro lado dessa prática. Quem sabe isso possa instruí-la.
Quanto ao "princípio da camaradagem", a pergunta que faço é: você realmente está ajudando?
No mais, nunca tive problema em recusar cola, em negar prova em dupla, etc. Ao menos nisso meu instinto de sobrevivência funcionava bem.

Só não consegui ser simples, não é, Diego?
Sem dúvida, na esmagadora maioria dos casos, se não em todos, estudar seria bem mais simples.

Ana Miranda disse...

E as técnicas vão ficando cada vez mais avançadas...

Yúdice Andrade disse...

Em geral, repetem-se as tradicionais, Ana. É preciso tomar cuidado com todas.