terça-feira, 9 de novembro de 2010

Quem está votando?

Já comentei aqui acerca das enquetes que o Senado realiza através de seu site. Atualmente, a pergunta é: "Você é a favor ou contra o projeto (PLS 227, de 2004) que permite o abortamento de fetos anencéfalos?"
Computados 10.220 votos, vence por ampla maioria a posição contrária, com 71,54% dos votos. Apenas 28,46% dos votantes manifestou-se favoravelmente à medida.
Honestamente, eu não compreendo. Fico com a impressão de que os sectários religiosos (estes existem em profusão e normalmente são diligentes) se postaram na frente dos computadores e votam reiteradamente. Não creio que esse resultado (vale lembrar, é apenas uma consulta informal, sem qualquer valor científico) espelhe o real pensamento do povo brasileiro. Porque embora a hipocrisia reinante leve à existência da opinião que se vende para o consumo público e da opinião que se carrega no íntimo, o fato de a votação ser anônima permite que a opção seja marcada sem riscos à reputação. Mas o meu motivo principal é saber que muita gente que vocifera contra o abortamento no fundo o tolera, muitos inclusive o praticam, desde que na clandestinidade. E olha que me refiro ao abortamento meramente voluntário, aquele de quando o bebê é saudável, mas os pais, ou pelo menos a mãe, não estão a fim de tê-lo.
Creio já ter mencionado, aqui no blog, uma amostragem mínima, mas relevante para mim: quando comecei a lecionar, eram poucos os alunos que se confessavam favoráveis ao abortamento. Hoje, esse número é muito maior e os favoráveis parecem menos preocupados em admiti-lo.
Seja como for, não há dúvida de que a questão religiosa é determinante. Para mim, contudo, um ordenamento jurídico que permitiu o abortamento em caso de estupro, por razões humanitárias, não poderia fechar os olhos aos casos de anencefalia e outros agravos que inviabilizam a vida extrauterina. Lembre-se que, na gestação decorrente de estupro, salvo eventualidades, o bebê é saudável e poderia trazer grandes benefícios à humanidade. O mesmo não se diga do anencéfalo, por razões objetivas.
Quanto ao Estado laico, nem vou comentar, porque sempre acabo me aborrecendo.

5 comentários:

Luiza Duarte Leão disse...

Vai ver os votantes são acéfalos e não entendem o significado de anencefalia. Única explicação plausível.

Anônimo disse...

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/828162-senado-aprova-reforma-do-codigo-do-processo-penal-em-primeiro-turno.shtml

Desculpe por colar a notícia em um post que não está relacionado.

Recentemente tive uma aula em que o professor afirmou que nós temos um dos melhores códigos penais do mundo, o problema é que o CPP é uma "porcaria". O senhor concorda com essa afirmação? Pode comentar?
O senhor acha que essas mudanças podem melhorar o processo penal ou são apenas mudanças paliativas? O senhor acha necessário um novo CPP?

Yúdice Andrade disse...

Todo dia me deparo com várias pessoas que devem possuir algum tipo de anomalia cerebral dessas, Luiza.

Tudo bem, caro estudante anônimo. Vou me inteirar melhor sobre o ocorrido para escrever a respeito. Mas adianto que, se o nosso CP foi um dos melhores do mundo, isso somente pode ser afirmado no contexto da década de 1940. Passadas algumas décadas, não há como afirmar-se o mesmo. Moralismos, punições absurdas, leniência com certas condutas que mereciam maior punição... Havia muito a criticar. Mas com certeza o CPP é ruim. Uma leitura rápida mostra que ele glorifica a burocracia e concebeu um processo lerdo, irritante, supostamente em nome da segurança. Mas acho que foi tolice de brasileiro, mesmo.
O pior é que esse ranço se entranhou na cultura jurídica e, hoje, é dificílimo vencê-la.
Qualquer hora dessas escrevo a respeito.

Ana Miranda disse...

Eu sou a favor do aborto em qualquer situação.
Já ouvi desaforos por conta disso, pessoas que dizem que a mulher que faz aborto tinha que morrer também.
Há como discutir com quem fala uma asneira dessas?!
Jamais negarei minha posição de favorável, pouco me importa que todos a minha volta sejam contra.

Yúdice Andrade disse...

Meu ponto é esse, Ana: as pessoas se dizem contrárias, mas fazem, se "preciso". Eu sou contra o abortamento voluntário e, por Deus, afirmo que jamais faria ou permitiria que minha mulher fizesse.