quinta-feira, 31 de março de 2011

Para todo mal há um canalha. Ou vários

Foi através do blog do Flávio Nassar que me deparei, nesta manhã, com o significado histórico do dia 31 de março. Reproduzindo notícia de outro blog, ele exibiu o convite do Comandante Militar do Nordeste para solenidade alusiva à — veja bem a designação — "Revolução Democrática de 31 de Março de 1964". Os militares persistem na convicção de que existe algo a comemorar.
Na seção de cartas dos leitores do Diário do Pará de hoje, deparamo-nos com um texto intitulado "Salve 31 de março!". Subscrito por um coronel da Polícia Militar, lamenta que a sociedade não perceba mais a relevância daqueles acontecimentos históricos, a educação distorcida dada à juventude sobre o tema e à falta de entusiasmo com que a cúpula das Forças Armadas comemoram o fato. Para ele, o que houve foi uma "gloriosa retomada e democrática devolução". Ufanismo típico.
Não lamento militares tentando convencer, aos outros e a si mesmos sobretudo, que o golpe militar de 1964 foi um sacrifício de amor à pátria contra a ameaça do comunismo. Nunca tentei convencer a Tia Coló, minha amantíssima tiazinha octagenária e analfabeta, que o homem realmente pisara na Lua em 1969. Ela estava convencida de que aquilo era mentira da televisão e as fotos e vídeos, apenas montagens. Se não tentei mudar aquela cabecinha branca, que era bem melhor, imagine a dos militares convictos.
O que eu realmente lamento é existir, ainda hoje, tanta gente saudosa dos tempos da ditadura, bradando que naquela época não havia tanta violência nem tanta corrupção. Violência e insegurança pública de fato não eram como hoje, mas por diversos fatores. Já quanto à corrupção, não se pode falar do que não se sabe, já que não havia liberdade de imprensa, nem de opinião. O que eu lamento, de verdade, é tanta gente legitimando e defendendo a barbárie e sustentando que, assim agindo, está provando ser um cidadão de bem.
Mas essa insanidade também tem um aspecto pitoresco: o mesmo inteligente que exalta a ditadura militar fala mal do Hugo Chávez. Não há como não destacar as conveniências ideológicas nesse tipo de sandice.
31 de março não é um dia a ser comemorado. O que devemos comemorar é a redemocratização do país — e olha que a nossa democracia é altamente capenga!

Um outro dia chegou. Ao menos isso.

4 comentários:

Paulo André Nassar disse...

Nao consigo acreditar que esse caras acreditam no que eles falam.

Como, por exemplo:
"Tudo foi necessário para que fosse restaurada a verdadeira democracia. Se houve excessos foi por que o governo legal estava sendo afrontado por terroristas que hoje vocês insistem em qualifica-los como heróis."

Governo legal?

Da uma olhada la no blog pra enteder o naipe do maluco.
http://pauloandrenassar.blogspot.com/2011/04/um-salve-para-gloriosa-revolucao-de-64.html

Abs,
PA

Yúdice Andrade disse...

Grato pelo apoio e pela sugestão de leitura, PA. Abraço.

Paulo M. F. disse...

Quando patrocinado por movimentos de esquerda é revolução e quando por setores de direita é golpe....será que é isso mesmo? Particularmente creio que 64 foi sim revolução e 68 (AI-5) golpe. Também creio que o assunto é geralmente abordado sem rigor fático por todos, a exemplo de outro assuntos polêmicos como o nazismo, ou será que alguém com alguma tribuna teria coragem de contrariar as "verdades" estabelecidas e ensinadas nos livros de história. Os pouquíssimos que ousaram se arrependeram. Enfim, quem sai vencedor conta a história e não a verdade...

Paulo André Nassar disse...

Caro Paulo,

Acho que não compartilhamos da mesma concepção de "Revolução" (ou de Golpe).

Seria interessante que vc explicasse isso. Pq até onde meus rasos conhecimentos permitem falar, em março/abril de 64 os militares destituíram um governo democraticamente eleito e impuseram sua "ordem", tendo a força e a violência como principal instrumento de "legitimação".