quinta-feira, 5 de março de 2009

Quebrando o paradigma do vovô

Por questões de princípios, detesto falar de qualquer coisa relacionada ao Big Brother Brasil. Imponho-me este comedimento a fim de não incorrer em conduta que critico em outros que, alegadamente, condenam o programa, mas se lançam nos acalorados debates que surgem sobre ele. Uma coisa, porém, preciso dizer acerca não do programa em si, mas de efeitos sociais que somos forçados a reconhecer.
Antes de mais nada, identifico uma evolução na carreira dos BBB ("ex-BBB" virou uma espécie de condição social, tal como estudante, empresário, consultor, etc.). Antes, os participantes que tinham dotes físicos para tanto saíam da casa direto para o Paparazzo, sítio sensual-que-não-mostra-quase-nada do portal Globo.com, podendo depois cravar a capa de alguma revista de nu. As mais sofisticadas vão para a Playboy; as menos, para a Sexy. Os homens acabam mesmo na G, que oficialmente não se destina ao público do sexo oposto, e sim aos gays. [Parece que, no final das contas, só homens consomem pornografia. Só parece.] A evolução a que me refiro é que a indústria do cinema pornô fica de olho nesses talentos, oferecendo-lhes o espaço necessário para estrelar suas produções.
O curioso é que a indústria pornô não está interessada apenas em corpos sarados, em homens com cara, voz e jeito de cafajeste ou em mulheres com cara, voz e jeito de vagabunda. Antes mesmo de ser eliminado, o sexagenário Norberto já fora publicamente cogitado para um longa pornô. Agora, idêntica sondagem está sendo feita em relação à igualmente sexagenária Naiá. É o caso de nos perguntarmos a razão de expor essas pessoas a esse tipo de trabalho. Como o mundo das celebridades vive de aparência  da aparência de beleza, saúde, juventude e sofisticação , só posso concluir que os dois vozinhos do BBB foram cogitados por conta do mercado que existe para aquilo que se chama, com maior ou menor justiça, de estilo bizarro.
Com efeito, a Psicologia reconhece fetiches para todos os gostos (e falta deles). Há sexo com animais, com mortos, com portadores de anomalias físicas, com gente comendo cocô e todo um universo que eu, honestamente, prefiro comentar por alto. Se há praticantes disso, naturalmente há público para filmes com esses conteúdos. Ainda mais considerando os reprimidos, que não vencem suas barreiras pessoais para fazer, mas que se aliviam vendo outros na atividade. Com a expansão da indústria pornô, não é de admirar que vejamos um crescimento dos títulos de sexo para a terceira idade (perdão, melhor idade), rivalizando com o catálogo tradicional.
O mundo está mudando, como sempre. Se para melhor ou não, dependerá da miopia de cada um. De minha parte, tenho tentado ser menos moralista. O que não me impede de lamentar a declaração da esposa de Norberto, que supostamente teria dito que, por um milhão de reais, não se importaria de ser traída. É, no fundo, muita gente também não, inclusive muitos que afirmam o contrário.
O sucesso do BBB se explica por um dos slogans da emissora: "Globo: tudo a ver com você" (mais ou menos isso). Então está explicado.
Degradação dos valores familiares: a gente vê por aqui.

7 comentários:

Anônimo disse...

Yúdice, sou fã do programa. Aliás, sou fã de realities.

Assisto o BBB desde o primeiro. E me divirto. Claro que gosto é gosto. Tenho até PPV e um blog sobre o programa (tá vendo porque disse que "mais um" era foda pra mim? rsrsrsrsrsrs).

Certa vez, falando isso numa reunião de amigos, só faltaram me jogar na vala. Uma prima presente disse que estava decepcionada comigo e que achava que eu era mais inteligente.

Bobagem. Uma coisa não leva, ou trás, a outra. Penso.

Ontem, por exemplo, estava vendo o BBB no PPV e vendo, concomitantemente, o "Observatório da Imprensa" do Alberto Dines, no canal TV Brasil da Sky. Uma coisa não exclui a outra.

Sempre fui assim. Pra mim qualquer cultura é cultura, até a cultura inútil.

Compulsivo, leio de Batman a Dostoieviski, de Mad a Marcelo Gleiser.

Quanto ao sexo na terceira idade, quando eu chegar lá te falo! rsrsrsrsrs

Ps.: A Naía não é tão vovozinha assim. Tem 61 anos. Nesta idade, muita gente ainda está no batalho lá no Ver-o-peso, com paneiro de açaí na cabeça, e feliz.

Yúdice Andrade disse...

Meu amigo, não são regras, mas podem ser sintomas. Reconheço, contudo, que sou muito rígido quanto a certas questões e, não raro, cometos meus exageros.
Tenho grande respeito e estima por pessoas idosas. Sinto uma saudade terrível de uma tia que nos deixou há quatro anos. Por isso, nenhuma crítica a idosos, como penso que o texto demonstra.
Quanto aos 61 anos de Naiá, parece bem mais.

Anônimo disse...

O texto deixa claro seu respeito ao idoso.

Porém, cabe uma pergunta. Será que o entretenimento do sexo só cabe aos jovens? Ou, nem a eles?

Há sexo na terceira idade? Ou apesar dela?

Pois é, a edição transforma a Naiá em vovozinha familiar (convém à Globo), mas, no dia-a-dia da "casa mais observada do Brasil" (by Bial) ela é o cão-chupando-manga. Filho-da-puta, puta-que-pariu, vai-tomar-no-cú é vírgula pra ela.

Dias desses ela disse que não via a hora de sair dali pra dar uma catracada com o marido! rsrsrsrs

Frederico Guerreiro disse...

Nunca assiti a um BBB sequer. Quando tudo começou (acho que ainda no reality "No Limite"), percebi que nada de prazeroso ou útil poderia absorver do programa. Entendi o BBB como uma forma de matar o tempo, em meio a uma grande tribo absorta em torno de um vazio absoluto. Tudo parte de um estratagema da indústria para vender produtos de que não se precisa, e para vender futilidades. Tudo bem bolado para manter o telespectador distraído, embevecido, enquanto se lhe empurram subliminarmente alguma moda nova criada pelos participantes ou por comportamentos sugestivos. Não pensem que aquelas pessoas não estão sendo manipuladas para venderem algo ao telespectador, ao mercado. E o que é mais triste: vendem a subversão da moral pelo dinheiro. Não se torce mais pela inteligência do participante, mas pelo dinheiro que pode ganhar. O dinheiro domina a programação de todos os canais. E o telespectador não evolui em nada ao perder tempo com inutilidades. Assim se pode ver a força que a televisão exerce nas sociedades.
O BBB é a confraternização das coisas mais inúteis já inventadas pela tevê norte-americana e imitada pelos brasileiros. Funciona porque é uma indústria de entretenimento que gera bons lucros ao seu criador.
Se as pessoas gostam de comer cocô, para mim pouco importa, desde que logo após não assoprem no meu rosto. Afinal, os mesmo efeitos que a comida ruim causa no corpo de um ser humano, o Big Brother causa ao cérebro de quem não tem criatividade para buscar o que fazer.

DANIEL COUTINHO DA SILVEIRA disse...

Prezados,
Primeiro parabéns ao Yudice pelo blog, que acompanho com frquencia.
Não resisti comentar esse post, porque, aviso logo, detesto esse programa.
Odeio a emoção forçada daquelas pessoas quando são eliminadas ou não. Odeio a tentativa de parecer inteligente ou parecer - desculpem o palavreado - escroto (o que é muito mais frequente). Odeio a superficialidade que se percebe na percepção da maioria daquelas pessoas sobre os mais diversos assuntos, sejam quais forem. Odeio que um bom jornalista seja submetido a escrever textos terrivelmente piegas (para dizer o mínimo) a cada retirada de um participante da casa. Odeio que o comportamento daquelas pessoas seja considerado o normal, invejado pelo nosso povo. Odeio que o povo dê entrevista na rua comentando sobre os participantes apaixonadamente, justificando na base do "é legal", "é chato".
Sinceramente esse programa me assusta. Perpetua eficazmente a idéia de que ser incauto, grosseiro, idiotizado é bom, é normal. Afinal, todos (ou a maioria esmagadora) os brothers são.
Vejam: não estou dizendo que isso é uma pena porque acaba com nossos valores tradicionais. Não quero ser saudosista.
Quero que o BBB seja objeto do escrutínio público e acredito que não há razões que levem a perpetuá-lo. Mesmo a diversão que pode eventualmente proporcionar provavelmente não é a mesma após 9 anos.
Mas não é que ele se perpetua? Não é que o escrutínio lhe é amplamente favorável, conforme comprovam seus índices de audiência e os milhões de votos que registra a cada semana? E não é somente no Brasil, mas em diversos países onde a escolaridade e cultura são bem mais acessíveis.
Certamente assistir BBB e ser idiota não são coisas necessariamente correlatas, como disse Lafayette, anteriormente. Mas carecemos cada vez mais dos parâmetros contrários. Ainda bem que alguns conseguem desligar o BBB e abrir Dostoievski, mas, convenhamos, ninguém faz isso sem um backgroud favorável.
No nosso país, muitos são educados pela TV: no modo de falar, vestir, se relacionar. A TV (e outras tecnologias) é o locus onde são partilhadas experiências comuns, substituindo o ágora, a praça pública. Se nesse locus só encontramos imbecis, por que deveriamos ser de outro jeito?
Não acredito que esteja a exigir muito. Um dos maiores jornalstas da TV americana, Edward R. Murrow apresentava tanto programas de variedades quando de reportagens importantes na agenda política. O suficiente para passar a imagem de que um homem é capaz de se divertir, mas também de falar coisas sérias.
Não temos em nosso horizonte coisa parecida. Estamos perdendo uma referênca e abraçando cegamente outra, idiotizante. Daí porque rejeito com veemencia a TV para mim e para meus iguais.
Em resumo: odeio o BBB. Não somente pelo que ele é, que não me agrada, mas principalmente pelo que representa - o mundo em que não somos capazes de pensar em nossos problemas.
Nem só de circo vive o homem!
Um abraço,
Daniel Coutinho da Silveira
www.direitoeprocesso.blogspot.com

Anônimo disse...

A TV Cultura está à míngua.

Yúdice Andrade disse...

Lafayette, eu jamais defenderia que o sexo deve ficar restrito aos jovens. E aos poucos as resistências dos ignaros quanto a essa realidade vão caindo. Minha questão é: se não admito a venda pela TV do sexo entre jovens, que é mais antiga, por que defenderia idêntica prática, quanto aos idosos?
E a TV Cultura? O nome já começa a explicação.

Engraçado, Fred, eu até gostava de "No limite". As provas tinham mais a ver com aptidões do indivíduo do que com sorte, como no BBB. Curiosamente, o programa não durou tanto. Já o BBB, que nada oferece, é sucesso sempre. É o público, meu amigo. Se ninguém comprasse, não seria vendido.

Salve, Daniel. Obrigado pelo prestígio que me oferece. Quanto ao comentário, concordo integralmente. Chamou-me a atenção o que escreveste sobre a artificialidade dos comportamentos na casa do BBB. Devo dizer que é por causa deles que desisti de ver o programa. Sim, eu comecei a ver a primeira edição. Mas em dois ou três dias constatei que aquilo não era para mim. Afinal de contas, ócio e festa não é vida para mim. Então não verei terceiros vivendo desse jeito.
Meu caro, BBB nem circo é.