quarta-feira, 26 de maio de 2010

O meu fim de Lost

Aviso aos navegantes que este post contém mais spoilers do que palavras, então se você não viu o fim de Lost, não leia. Este post é complementar aos comentários do André Coelho, que o Yúdice publicou nos posts Lost: desejar a liberdade e Lost: encontrei o que eu buscava. Então, se quiserem ler lá primeiro, entenderão melhor minhas palavras.


André, você descreveu tão maravilhosamente meus próprios sentimentos sobre Lost que me abstenho de escrever um post sobre o seriado, como queria inicialmente. Vou emendar no seu comentário.
Depois do The end, eu pensei em várias possibilidades para entender o que vi. Primeiro pensei que eles morreram já no desastre de avião, e que o seriado todo foi post mortem. Mas isso não faria muito sentido, considerando vários pontos do que você falou. Depois, pensei que eles talvez estivessem mortos ao explodir a bomba em 1977, mas, se assim fosse, qual o sentido de haver uma divisão de consciências? Ninguém consegue viver em dois lugares ao mesmo tempo.
Por fim, acho e acredito que a "realidade paralela", como ficou conhecida, representava o lugar para o qual todos foram depois de morrer, morrer em tempos diferentes, uns mais cedo (Shannon, Libby, p. ex., Jin, Sun) e outros bem mais tarde do que Jack (como Hurley, Sawyer, Kate). Todos em estado de negação, pela intensidade da experiência que viveram, sem acrditar que morreram, e sem conseguir lidar com as experiências vividas depois da queda do Oceanic 815. E esta necessidade coletiva de resgate recriou a viagem para LA, o último resquício de "vida normal" na vida de todos eles. Eles apareceram lá com vários dos defeitos de antes, pois ainda eram eles mesmos, mas com algumas diferenças, Jack mais maduro (representado na "criação" de seu filho), Kate inocente, Claire mais apegada a idéia de ficar com seu bebê, Sun mais corajosa ao ter o caso com Jin e este mais doce com ela, enfim, cada um deles recriando sua persona com algumas alterações tendo em vista tudo o que viveram após a queda na ilha, cada um deles modificados por estas experiências.
Quanto aos personagens "secundários" (Miles, Charlotte, Faraday) que não faziam parte daquela "família", mas estavam lá também: acho que eles não estavam realmente lá, eram parte do cenário, tentativas que o cérebro faz para tecer a teia da realidade e tornar tudo compreensível para a nossa psique. Por isso, não estavam na igreja.
A ilha? Acho que continuou existindo e ainda existe um Jacob para cuidar dela, escolhido por Hurley quando ele não mais podia ficar no cargo, mas sem um monstro de fumaça, só a luz, a ser protegida do resto do mundo.
Ji Yeon cresceu sem os pais e talvez Aaron tenha crescido com duas mães. Walt continuou sua vida com a avó sem saber o que houve com o pai. Aliás, ficamos sem saber porque afinal ele era especial. Mas, a sério, quem liga? Eu sabia que haveria perguntas sem resposta e mais perguntas do que eu esperava foram respondidas, então eu estou feliz.
As imagens dos rostos felizes dos personagens na cena da igreja ainda estão em minha mente. E ficarão por um bom tempo, até que eu e Yúdice decidamos comprar os boxes e assistir tudo novamente, daqui a um tempo. Eu sei que verei. E sei que vou curtir novamente a jornada. E o fim.

7 comentários:

André Coelho disse...

Polyana, obrigado pelos elogios. Também vejo como você como foram os rumos das coisas em vida depois da morte de Jack. Nem tudo foi feliz, ao contrário dos que dizem que Lost se rendeu ao happy ending. Não houve happy ending, e sim deep meaning. O primeiro teria sido a celebração da ilusão da completa felicidade terrena. O segundo foi a celebração de um felicidade mais profunda e oculta, espraiada em momentos e pessoas essenciais, que pode estar presente mesmo na vida mais fracassada e infeliz.

P.S. O único que se deu bem foi o Richard. Não foi enforcado, foi pra ilha, se tornou conselheiro de Jacob, viveu uns duzentos anos, recuperou sua mortalidade e saiu de avião para viver num século em que é muito mais fácil comprar eyeliner e é muito mais aceitável que os homens o usem, rsrsrsrs. Só uma brincadeirinha para descontrair.

Polyana disse...

Verdade, o Richard, eu fiquei felicíssima qdo vi o cabelo branco dele, ele merece cada um deles! :)
E o Miles, que pegou os diamantes!
Fico pensando que o povo ficou frustrado pq não soube de TUDO o que aconteceu com os personagens, tipo, será q o Aaron ficou c a Kate ou a Claire? Será que Saywer e Kate se envolveram? Coisas de menor importância, eu diria inclusive saber como a mãe do Jacob chegou à ilha ou quem passou os poderes pra ela. Gente obcecada, que quer saber de todos os mínimos detalhes...
O que importava foi resolvido: saíram da ilha quem tinha que sair, morreu na ilha quem tinha que morrer, ficou na ilha quem tinha que ficar, o homem de preto morreu...
Ih, vou esperar ansiosa nosso café floripano. :)

Tanto disse...

EU estou sem acompanhar Lost, mas gostei de ter lido. Vou fazer o mesmo que vocês - comprar o box que me faltam e, durante as férias, assistir tudo de novo.

Francisco Rocha Junior disse...

Caros,
Ainda não tive tempo para organizar um texto que quero escrever sobre este final de Lost.
Mas, de antemão, afirmo que discordo da tese de que eles não estivessem mortos desde a queda do avião. É a única explicação para tudo o que é ilógico na série.
A respeito do tema, sugiro a leitura de "O Terceiro Tira", um livrinho do irlandês Flann O'Brien que, salvo engano, teve sua primeira edição em português lançada há anos, esgotou-se, e somente veio a ser novamente editado (uma edição de bolso da L&PM) após a obra ser mencionada pelos produtores de Lost como um livro capital para entender o seriado. Lê-lo é como antecipar em anos a conclusão da história que acompanhamos na televisão.
Ademais, os restos do avião, na última cena do capítulo final, tornam para mim muito claro esta afirmação. A redenção pretendida, portanto, é toda espiritual; não necessariamente religiosa, mas espiritual, com certeza.
Farei um post (ou uma série deles) no Flanar defendendo esta tese, quando houver tempo.
Abraços em todos.

Yúdice Andrade disse...

Verdade, André. Mas considerando os seis que deixaram a ilha no avião - Lapidus, Miles, Sawyer, Kate, Claire e Alpert -, este último é o que mais me intriga. Porque os outros voltaram a um mundo que conheciam, quanto possível. Ao passo que Alpert foi lançado em um cenário que eu consideraria ao mesmo tempo fascinante e aterrador.
Espero que, movidos ou não por interesses econômicos, os autores da série mantenham viva a mitologia criada, por meio talvez de livros (de qualidade!) sobre esses personagens. Penso que um livro contando a vida de Richard Alpert - uma história de dois séculos e meio, antes e depois da ilha - seria adorável.

Estou esperando lançarem a caixa com todas as temporadas, Fernando. Quero dizer: lançarem e baixar o preço. Vai demorar, com certeza. Mas é fundamental rever a série inteira, de ponta a ponta.

Claro que vou querer ler o livro, Francisco. E aguardarei ansiosamente a tua postagem.

Poly, eu não me lembrava dos diamantes... Pelo menos sabemos como um deles se sustentou no pós-ilha. No mais, é verdade que querer saber tudo nos mínimos detalhes tem a ver com o público do "Chaves" e não de "Lost".
Estás vendo, André? A enturmada da Polyana já fala em "nosso café"?!
Ahahahahahah

Edyr Augusto disse...

Adorei ler os comentários, as dicas todas. Eu também me emocionei ao final, parecendo um noveleiro desses, bem reles, assistindo às cenas de casamentos das novelas das oito. Mas é que convivi com aquelas figuras durante alguns anos. Não sei o que me prendeu tanto a Lost. Aquelas respostas enigmáticas, pela metade, dadas a cada fala dos personagens. Ao mesmo tempo me irritava, mas me deixava mais curioso. Achei bacana a coisa do homem da razão e o homem da fé. Em dado momento, Jack diz "Locke tinha razão. Ele sempre teve razão". Engraçado, também, que na vida paralela, Jack quer operar Locke, que não aceita. E adiante, operado, andando, ele agradece a Jack, o homem da razão, por tê-lo curado. Talvez tenha assistido, todos esses anos, para ver Kate, a sardenta, tão linda, e cada vez mais. Mas quando Jack, na sacristia, encontra o pai, cara, me emocionei muito. Lembrei do meu. Será que o encontrarei quando for minha hora? Jack pergunta se é aquilo mesmo, como quem não quer ir, apêlo absolutamente final, como o personagem de minha peça "Abraço", feito por Cláudio Barradas. A mulher diz, secamente, "não". O pai de Jack diz que já estão todos mortos. Todos temos nossa hora". Foi legal, sobretudo a última cena, dos destroços e apenas o ruído do vento, na praia, nas palmeiras. Achei bacana. Continuem comentando. Adoro.
Abs
Edyr

Yúdice Andrade disse...

Francisco, acabei de encontrar no "Lost in Lost":

Durante os créditos finais da série, foram mostradas cenas dos destroços do voo 815 – o que levou muitos fãs a cogitarem que isso seria uma dica de que todos morreram no acidente. Kristin negou veementemente essa possibilidade; e mais tarde Lindelof e Cuse disseram que aquelas imagens foram tão somente uma forma de “descompressão” do público, fazendo uma transição mais amena e menos impactante da cena final de “Lost” para a exibição do noticiário da ABC.
O texto pode ser encontrado aqui: http://colunas.tv.globo.com/lostinlost/2010/05/26/o-nome-do-homem-de-preto-e-mais-respostas-em-dvd-e-videochat/