terça-feira, 30 de agosto de 2011

Abuso de autoridade

Não havia a menor chance de eu não comentar esta.


Após discussão, professor ameaça dar voz de prisão a aluna em SP

Confusão ocorreu no curso de direito da Universidade Mackenzie. Ela questionou método de ensino do docente, que é procurador de Justiça. Do G1 SP
 
Um professor de direito penal da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, ameaçou dar voz de prisão a uma aluna do quinto semestre do curso depois de uma discussão na sexta-feira (26). Nesta terça (30), quando o caso tomou repercussão, a assessoria de imprensa da instituição de ensino, uma das mais tradicionais do estado, confirmou apenas que houve o bate-boca entre os dois. Ninguém foi preso. De acordo com o Centro Acadêmico do curso de direito, a jovem, que tem 30 anos e é bolsista, questionou o método de ensino do professor.O G1 não conseguiu falar com a aluna nem com o professor. Em nota, o Centro Acadêmico considerou “inadmissível” a postura do professor e quer um pedido formal de desculpas pelo “constrangimento” pelo qual passou a estudante. Na versão apresentada pelo centro estudantil, na entrada da sala dos professores, a aluna abordou o professor nas escadas dizendo que estava sentindo dificuldades em entender a matéria passada.Como ela questionou a metodologia do docente, ele “ficou transtornado” e disse, ainda segundo o comunicado, que “a aluna não tinha capacidade para avaliar sua aula”, pois ele leciona há 20 anos e nunca passou por problema parecido.A estudante tentou procurar, então, o coordenador do curso, mas o Centro Acadêmico disse que ela foi impedida pelo professor, que agiu, “mandando os seguranças barrarem a aluna, pois, segundo ele, ela estava faltando com o respeito”, informa a nota. A estudante afirmou que o docente é que estava sendo desrespeitoso e, nesse momento, “gritando em voz alta”, ele ameaçou chamar a polícia e dar voz de prisão a ela.

Bastou ler a manchete no Portal G1, sem nenhuma visão da matéria em si, e já sentenciei: isso aconteceu num curso de Direito! Dito e feito. A segunda dedução imediata: o professor exerce algum cargo público, desses que com uma certa facilidade se sentem desacatados e apelam para o crime de desacato à autoridade, porta aberta para o abuso dos descontrolados. Quando vi que se tratava de um procurador de justiça, não me surpreendi nem um pouco.
No mais, não podemos saber exatamente o que aconteceu, já que toda história tem ao menos três versões: a minha, a sua e a verdadeira. Mas suponho que estamos diante do velho problema de exercer a docência como manifestação de poder. Isso é uma característica hediondamente frequente nos professores, que ganha contornos muito especiais no ensino jurídico. Para mim, soa absolutamente crível um professor se ofender por ser questionado, ainda mais em se tratando de um sujeito com longa carreira. Como se isso, por si só, o tornasse um bom mestre!
Recordo-me de um colega que certa vez perguntou, na sala dos professores, o que considerávamos um professor experiente. Na opinião dele, não é o que faz a mesma coisa há muito tempo, ainda que bem; e sim o professor que experimenta. Isso é meio gongórico, mas faz sentido. Respeitável é o professor que tenta, que se modifica e suporta as críticas, ainda que lhe doam. Ainda que o deixem indignado. Mas com elas, ele aprende.
Vamos ver se sai alguma notícia mais completa sobre o caso.

Acréscimo em 31.8.2011
A aluna envolvida neste caso conversou com jornalistas e ratificou a versão de que foi ameaçada de receber voz de prisão, na presença de outros alunos. Ela nega ter faltado com o respeito ao professor, porque tem medo de perder sua bolsa. Ela tem 31 anos, "origem humilde" e estuda na tradicional Mackenzie graças a uma bolsa integral obtida através do ProUni.
O Centro Acadêmico divulgou nota atribuída ao professor, na qual ele diz que foi desrespeitado e, diante de avisos que não foram obedecidos, recorreu aos seguranças. Que perigo, afinal, essa moça representava para ele, a ponto de precisar dos seguranças? Enfim, a certa altura ele deixou de falar como professor e assumiu sua condição de procurador de justiça. Se assim foi, é ridículo. Na universidade, ele é professor. O andamento do caso não está bom para ele.

3 comentários:

Daniel disse...

Típico de professor de direito... tive uns que eram complicados também, mas eles passarão, eu passarinho... abraços!!

Luiza Duarte Leão disse...

Yúdice, como anda aquela sua idéia sobre a necessidade de teste psicotécnico para certas coisas? Ultimamente, o número de promotores ensandecidos, vou te contar...

Yúdice Andrade disse...

Daniel, não acho justo dizer que é uma atitude típica de professores de Direito. No máximo, uma atitude mais comum entre professores de Direito do que de outras áreas. E não digo isso por mim nem por meus colegas. Penso que, durante minha graduação em 1992/1997, poucos, bem poucos foram os professores destemperados, do tipo que quer dar carteirada. E os tempos eram mais propícios a isso.

Acreditas, Luiza, que em relação ao MP eu até acho que melhorou um pouco? Claro que os casos de abusos ainda são muitos, mas acredito que o perfil esteja mudando, não apenas pela melhor compreensão da função, mas também pela melhor seleção através de concursos públicos (quando bons, claro).