sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Só não digo o que farei

O governador Simão Jatene interpretou o seu personagem ontem, em entrevista à televisão, na qual mostrou a sua indignação-cidadã frente ao caso dos bebês mortos numa situação de possível omissão de socorro na Santa Casa. Falou com aquela eterna voz empostada, meio sussurrada, que tenta demonstrar a grandeza de seus sentimentos.
Esqueceu-se Sua Excelência, todavia, que não é um cidadão comum, mas a pessoa que, neste momento, deve responder mais do que qualquer outra pelo ocorrido. E deveria fazê-lo abandonando o típico estilo PSDB de falar muito e nada dizer, porque se limitou a bradar que o episódio não deve ser minimizado e que "todos devem se indignar". Ótimo, já estamos indignados. Agora falta o pescador, que ainda não começou a governar, dizer quais ações concretas serão tomadas para melhorar a saúde pública no Pará ou, pelo menos, naquele hospital. Sobre isso, não foi dito nada.
Não foi dito, p. ex., quando será inaugurado o novo bloco da Santa Casa, cujas obras, se avançam, avançam num ritmo lerdo, incondizente com um local onde um motorista de ambulância já subiu no veículo, em plena rua, para clamar por socorro para uma criança doente. As ações concretas não podem limitar-se a queimar a presidente da Santa Casa, moço. Isso gera reações emocionais, mas não resolve nada.

Acréscimo em 27.8.2011
O amigo André Coelho forneceu o link para a entrevista exibida pela TV Cultura (que é estatal). Pude revê-la e fiquei ainda mais irritado, pela insistência do governador em se colocar no mesmo nível dos demais paraenses, o que ele faz de forma declarada, além de apelar para o velho argumento de que é um servidor público. Por meio dele, dá a entender que a saúde pública no Estado é quase uma questão de atitudes pessoais.
Somente no final ele se recorda de sua condição de governador, mas permanece em cima do muro, como convém a um tucano. Diz que o dever de casa sobre a saúde está "sendo feito, muitas vezes silenciosamente". E por meio desse discurso cretino, não esclarece quais ações estão sendo efetivamente implantadas em favor da saúde pública no Pará. Patético.

9 comentários:

André Coelho disse...

"Moço", não. "Caboco", que ele prefere.

Frederico Guerreiro disse...

É a campanha...

Anônimo disse...

Tem muito médico e médica que tá na área publica por conta da estabilidade e das benesses que oferece. Eles gostam mesmo é da iniciativa privada e suas relações promíscuas com laboratórios e empresas das áreas de saúde ( se é que podemos considerá-las como tal). Tem médico que tem seus consultórios mais freqüentados por aquelas gostosonas representantes de medicamentos do que por pacientes. Tem médico que se preocupa com a doença e não com a sua prevenção, pois dá mais dinheiro. Tem médico garoto propaganda de fabricantes de remédios. Viajam pelo mundo afora bancados por essas corporações. Ou eu equivocado?! Tem prefeitura do interior do estado pagando 25 mil pra medico trabalhar 10 dias nomes e ninguém quer ir,pois preferem ficar no conforto da cidade.

Lilica disse...

"Moço", "Caboco", "Dotô", "Guvernador", etc,etc e etc. No frigir de todos os ovos, ele até aqui nada fez e continua não fazendo. Bem disse o Yúdice: interpretou um personagem, porque assim lhe convém, de voz empostada, expressão facial entristecida e falando muito e nada dizendo.

Anônimo disse...

Enquanto o Porto dias e Saude da Mulher constroem em tempo recorde predios com mais de 15 andares. Mas tem uma explicação pra tanta prosperidade,enquanto o setor publico é sucateado o povo,commedodemorrer na porta de um psm, corre pra iniciativa privada.

Yúdice Andrade disse...

André, folgo em saber do teu retorno à blogosfera!
Não sabia dessa preferência do "caboco". Deve ter a ver com o personagem.

Parece que ela nunca terminou, não é, Fred? Pelo jeito, vai emendar com a próxima.

Das 11h42, li certa vez uma reportagem preocupante sobre as relações entre médicos e a sórdida indústria farmacêutica. Comecei a duvidar dos remédios que me prescrevem (pode não ser o melhor, mas é fabricado pela empresa que patrocina o cidadão) quando soube dessa história de financiar viagens, presença em congressos, publicações, cursos, etc. No mínimo, pagam almoços em bons restaurantes. Daí não pode sair nada bom para nós.

Bom saber, Lilica, que uma psicóloga interpreta do mesmo jeito.

Das 11h45, essa é a parte em que devemos agradecer aos nossos governos, dos municipais ao federal. Desmantelamento do serviço público e pouca fiscalização do privado. Aí é um abraço. Mas, para nós, é um abraço por trás...

André Coelho disse...

Podes até acrescer à postagem: http://www.youtube.com/watch?v=LbZ3zx-Qytw&feature=related

Luiza Duarte Leão disse...

Sobre o comentário do anônimo, falando em relações promiscuas, vale lembrar dos congressos de magistrados, financiados por empresas envolvidas em processos judiciais ou ainda uma certa viagem à Itália do Ministro Toffoli, com tudo pago, por um empresário com processo no STF.

Yúdice Andrade disse...

Agradeço novamente, André. Foi bom ver a declaração estendida.

Isto pode ser extremamente pernicioso num nível macro, Luiza, considerando o impacto que as decisões do STF têm na vida dos brasileiros como um todo.