terça-feira, 31 de julho de 2007

Sabotadores (ou assassinos) econômicos


Imagine um grupo de pessoas recrutadas para viver uma vida dupla. Oficialmente, são consultores ou analistas financeiros bem intencionados. Na verdade, são executivos de empresas conluiadas com o governo dos Estados Unidos, cuja missão é visitar chefes de Estado pobres e oferecer-lhes financiamentos para grandes investimentos — em exploração de petróleo, produção de energia elétrica, construção de portos e estradas, etc. Eles elaboram relatórios fraudulentos, mostrando que o país terá enriquecido no espaço de 10, 20 anos.
Os financiamentos são concedidos e o dinheiro acaba nas mãos de empresas americanas, que executam as obras. O suposto desenvolvimento econômico não acontece e os países, que já eram pobres, agora estão drasticamente endividados. Sem condições de pagar, são obrigados a vender suas mercadorias para os americanos a preços baixos, especialmente petróleo; ou são obrigados a votar com os americanos na ONU; ou ainda devem auxiliá-los em guerras. Os negócios são firmados graças à corrupção nos governos, pois as famílias dos líderes são proprietárias de empresas que se beneficiarão, seja através de contratos secundários das obras, seja através da produção de energia. Se algum líder nacional se recusar a participar da negociata, corre o risco de ser assassinado pelos "chacais".
Está achando que isso é o enredo de algum filme de Hollywood? Errou. Segundo o economista americano John Perkins, também não é apenas uma teoria conspiratória. Trata-se da mais pura realidade, uma prática iniciada em 1951, quando Kermit Roosevelt, neto de Theodoro Roosevelt, foi mandado ao Irã com a missão de derrubar do poder o xã Mossadegh, eleito democraticamente, o que consegui graças a uma campanha difamatória. Provou que investir nessas ações "estratégicas" dava certo e saía muito mais barato do que operações militares, além de ser mais seguro, em plena guerra fria.
Perkins conta tudo o que viveu nesse trabalho com o qual teria rompido por problemas de consciência no livro Confissões de um assassino econômico. O termo assassino ou sabotador econômico foi criado por Perkins, para designar esses agentes cuja meta era arruinar países pobres, pondo-os em situação de dependência em relação aos Estados Unidos. O livro foi publicado no Brasil pela Editora Pensamento-Cultrix e está à venda por R$ 33,30.
Segundo o autor, os assassinos econômicos existem hoje em maior quantidade do que em sua época. E ele tem certeza de que Lula foi visitado por eles.

Dou-lhe vivas!

Essa frescura de O Liberal ("Repórter 70") de "Viva a governadora!" já está me dando nos nervos. Hoje, teve até estorinha provavelmente inventada (não acredito em um monte de populares no Ver-o-Peso dando vivas a Ana Júlia). Ao final, mais um gritinho. Que diabos! Alguém pode me explicar conclusivamente o que é esse chilique todo?

Amamentação em presídios

A polêmica do dia parece estar relacionada à decisão do juiz das execuções penais de Pernambuco, que proibiu a presença de crianças nos estabelecimentos prisionais, devido ao consumo de drogas por parte das detentas.
Para variar, a questão é bastante difícil. O maior problema, neste primeiro momento, está centrado na interferência que a medida traz à necessidade de amamentação dos filhos de presidiárias. Ampliando o foco, contudo, observa-se que a medida também compromete a finalidade ressocializadora preconizada para a sanção criminal (e uma de suas maiores falácias). Há depoimentos de mulheres que dizem ver no filho o maior estímulo para deixarem o presídio e o crime, argumento por sinal plausível. Agora, privadas de seus bebês, corre-se o risco de um reforço negativo.
Ampliando ainda mais, lembra-se o princípio da intranscendência da pena, que não pode atingir além da pessoa do criminoso. Todavia, ao se proibir o ingresso de crianças nos presídios, e portanto inviabilizar a amamentação, também essas crianças acabam punidas pelos delitos de suas mães. Afinal, alimentar-se exclusivamente de leite materno até os seis meses é uma recomendação da Organização Mundial de Saúde, fator importantíssimo para o adequado desenvolvimento da criança. Sabemos que se trata de uma condição ideal, frequentemente não obtida por mulheres livres. Seja com for, constitui um direito da criança que, claro, não cometeu crime algum e por isso não poderia ser punida.
O Código Penal determina que "as mulheres cumprem pena em estabelecimento próprio, observando-se os deveres e direitos inerentes à sua condição pessoal" e que "o preso conserva todos os direitos não atingidos pela perda da liberdade" (arts. 37 e 38).
As Regras Mínimas para o Tratamento de Presos, da Organzação das Nações Unidas, foram albergadas no Brasil por meio da Resolução n. 14, de 11.11.1994, do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Está previsto que "Serão asseguradas condições para que a presa possa permanecer com seus filhos durante o período de amamentação dos mesmos" (art. 7º, § 2º).
Até aqui, a decisão judicial parece incorreta. Todavia, não podemos ser simplistas. Se as mulheres consomem drogas, amamentar pode se tornar uma ameaça aos bebês, de modo que a medida, por pior que seja, pode acabar sendo útil aos interesses de saúde daqueles. Foram relatados casos de mulheres que seguram o bebê com um braço e o cigarro de crack com a mão livre. A ameaça não está apenas na eventual contaminação do leite, mas na violência que pode ser cometida por pessoas "chapadas", ou então pela posse do entorpecente.
Falar é fácil. As autoridades devem eliminar a droga dos presídios e assegurar a convivência entre as mães e seus filhos num ambiente hígido e seguro. Simples assim. Mas como este mundo não é perfeito, medidas emergenciais e enérgicas precisam ser tomadas, com senso de realidade e não discursos bonitinhos.
Sinceramente, no dia de hoje, não sei dizer se o juiz errou ou não. Ajudem-me a refletir sobre o assunto, a fim de formar melhor juízo a respeito.

Secretária executiva do cérebro

Após o acidente com o voo JJ 3054 da TAM, foi como se as bruxas se soltassem e incidentes aéreos proliferassem. A todo momento panes, arremetidas, manutenções extraordinárias. Só aqui em Belém uma pequena aeronave ficou sem uma das rodas e outra, sem uma hélice. Um Boeing arremetou e aqui por perto houve um sério risco de colisão.
Quando ocorre um escândalo de corrupção ou alguma operação da Polícia Federal, denúncias pululam por todo o país.
Há, também, aquele simpático filme publicitário do Visa, cujo mote é que quando esperamos uma "chegada especial", um bebê, nosso mundo fica preenchido por isso e tudo que vemos ao nosso redor está relacionado.
Não é que os incidentes aéreos ou os escândalos de corrupção não tenham acontecido. Apenas as pessoas começaram a prestar mais atenção. E o motivo para isso se chama sistema reticular ativador ascendente (SRAA). Trata-se de uma área do cérebro que recebe os estímulos provenientes do meio exterior, com a finalidade de selecioná-los, garantindo que apenas os estímulos necessários e suficientes atinjam o hipotálamo e, deste, sejam enviados à hipófise e depois ao córtex.
O motivo é simples: somos permanentemente atingidos pelos mais variados estímulos (a começar pelo fato de termos cinco sentidos). Não há condições de o cérebro processar todos eles simultânea e eficientemente, por isso se torna imperioso selecionar o que é mais importante para nós. Assim, o cérebro da mãe que passeia com seu filho na rua se concentra nas situações que digam respeito à criança, diminuindo a atenção sobre coisas menos importantes (a hora, uma vitrine de loja, um objeto largado num banco de praça, etc.).
Essa seleção é a tarefa do SRAA, que pode ser considerado uma espécie de secretária executiva do cérebro, das boas. É graças a ele que você enxerga todas as pessoas que passam vestindo a camisa do seu time, mas ignora outras, talvez em maior quantidade, usando camisas de adversários. É graças a ele que um amigo meu enxerga louras em todo canto, embora sejam minoria em nossa região. É graças a ele que minha esposa vê placas de casas à venda mesmo que pequenas e que passemos rapidamente de carro.
Sem o SRAA, a vida seria insuportável, como se estivéssemos o tempo todo dentro de um videoclipe, num delírio de cores, sons, cheiros, texturas disparando ao nosso redor. Cuide bem do seu cérebro.

Respeite os brasileiros

Dentre as pessoas mais poderosas no universo mítico de Hollywood estão dois brasileiros: Fernando Meirelles e Walter Salles, claro. Saiba mais. Se alguém duvida da capacidade de brasileiros em fazer muitíssimo bem o que os americanos fazem, sorry. Pessoalmente, acho que o talento brasileiro com o dinheiro americano seria uma mistura arrasadora.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Golpe do cartão de débito

Reproduzo do blog Flanar:

Recebi de uma amiga que tem trânsito na área policial e repasso aos leitores para que atentem para esta nova modalidade de crime. Criatividade e inovação não faltam para os meliantes.
Abasteci o carro e, na hora de pagar, o frentista fez a gentileza de me alcançar a maquininha. Só que, nesse momento os dedos dele taparam o visor. Digitei e ele colocou de volta na bancada. Aí veio a minha sorte: por engano digitei um número a menos, e o cara sem querer falou:— Tá faltando um número.Como eu estava ao lado, olhei rapidamente pro visor e minha senha estava ali, ao invés dos tradicionais asteriscos! Como conheço o gerente do posto, chamei-o na hora, e perdi mais umas duas horas na delegacia. E lá veio o esclarecimento do novo golpe: O atendente faz uma gentileza e segura a máquina pra digitarmos a senha. Nesse momento ele tapa o visor com a ponta dos dedos, pois na verdade ele não colocou o valor da compra, e os dígitos da senha aparecem no visor, ficando expostos como se fossem o valor da compra. Aí ele anota a senha, e diz que não funcionou por qualquer motivo. Faz novamente o procedimento — só que desta vez o correto — e a gente paga a despesa.Pronto! O cara tem a senha anotada e o número do cartão que fica registrado na bobina. Segundo a Delegada que me atendeu, em 2 dias um cartão clonado está na mão da quadrilha e os débitos caem direto na sua conta.... O frentista confessou que "nem conhece quem são as pessoas por trás disso". Disse apenas que um motoqueiro passou no posto oferecendo R$ 400 por semana, com a promessa de passar pra pegar a lista e deixar o dinheiro. Fácil, né? Segundo a Delegada, esse golpe está acontecendo muito em barzinhos e boates.

Amigos, todo o cuidado é pouco. A começar por conferir se o valor do combustível, na bomba, é o mesmo da oferta.

Blog de utilidade pública

O comentarista Lafayette Nunes, em postagem relativa à trágica morte do amigo Eduardo Lauande, manifestou-se dando uma contribuição que considero da maior importância. Transcrevo seu texto:

Quando tiver retrato falado ou fotografia do(s) meliante(s), entrem em contato com o jornalista Walrimar Santos, assessor de Comunicação da Polícia Civil do Pará.A Polícia Civil tem um blog, o "PROCURADOS PELA POLÍCIA CIVIL DO PARÁ": http://policiacivildopara.blogspot.com/O efeito multiplicador da rede mundial de computadores é de conhecimento de todos.Aliás, boas idéias devem ser divulgadas, portanto, convoco a todos a "favoritar" nos seus blog's, tal sítio de divulgação pública.Além, claro, de subir pra ribalta (como diria o Juvêncio) em seus blog's, postagem divulgando-o.Este e outros crimes devem ser desvendados, e, o(s) assassino(s) preso(s). Urgente!

Divulgo a informação, portanto, pedindo aos leitores que a repassem, se puderem. A louvável iniciativa de nossa Polícia Civil também já ganhou um link aí ao lado.

Leis esdrúxulas para gente doida

Polícia holandesa detém homem por fazer sexo com ovelha

O proprietário da ovelha apresentou uma denúncia formal à polícia. As autoridades agora estão investigando se o animal sofreu.A polícia holandesa informou que deteve um homem suspeito de ter feito sexo uma ovelha na localidade de Haaksbergen, na região leste do país, e agora está investigando se o animal sofreu.A polícia pretende determinar se a ovelha sentiu dores durante o ato, já que na Holanda o bestialismo (prática sexual com animais) só é punido quando se pode comprovar que o animal sofreu, informou a agência de notícias holandesa "ANP". A detenção, que ocorreu na sexta-feira passada, aconteceu depois que o proprietário da ovelha apresentou uma denúncia à polícia. O partido trabalhista no governo (Pvda) apresentou em abril um projeto de lei para proibir o sexo e a pornografia com animais.

Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL77779-6091,00.html

No país em que a prostituição e a venda de drogas são fomentadas pelo Estado, e em que o suicídio assistido é permitido, bestialidade é crime. Mas só se o animal sofrer... Pergunto-me o que significa sofrimento, no contexto. Sentir dores? Como saberemos que o animal sentiu dores? Sexo entre humanos, às vezes, não provoca dores que os parceiros aprovam, mesmo não sendo masoquistas?
Isso está complicado demais para mim. Melhor eu estudar a legislação previdenciária brasileira, que é mais fácil.

O mito do turismo no Pará — 2ª parte

Nos últimos anos, alguns Municípios lançaram mão de campanhas publicitárias tentando atrair os visitantes de julho. O que mais vi na TV, desta vez, foi o filme de São João de Pirabas. Tenta-se destacar as praias, cachoeiras, trilhas ecológicas, festivais culturais ou gastronômicos e tudo mais que possa ser atrativo.
Opções não faltam e, se realmente maior público procurasse esses Municípios, Mosqueiro e Salinas respirariam melhor, além de que a riqueza circularia por outras regiões. É isso que devemos compreender como uma indústria de turismo, certo?
Mas se você dispõe de recursos para consumir nas férias, qual sua opção? Conhecer as pinturas rupestres de Monte Alegre ou as cachoeiras de Brasil Novo? Duvido. Você dará uma esticadinha ao Nordeste, enchendo os bolsos dos comerciantes de Fortaleza. Aproveitará a proximidade entre as capitais nordestinas. Ou, se preferir o frio, descerá ao sul do país, como eu faria. E sabe por quê?
Porque ninguém tira férias para ter trabalho. Se você viaja, quer ter à disposição locadoras de automóveis, hoteis limpos e confiáveis, serviços de atendimento turístico, opções de compra, internet de banda larga para as horas de descanso — enfim, as pessoas querem agito na hora do agito, mas querem a mesma comodidade que têm em suas casa na hora do sossego. E é aí que o Pará deixa a dever. Por maior que seja a boa vontade de nossos irmãos do interior, quem enfrentará uma viagem longa em estradas péssimas para, chegando ao destino, ficar num hotelzinho meia boca, com comida suspeita e sem acesso a nada, nem sequer um hospitalzinho em caso de necessidade? Quem pagará uma nota para uma viagem de avião a fim de acabar nas mesmas condições?
Os responsáveis pelo turismo precisam lembrar-se de que os jovens, audaciosos e aventureiros, que botam uma mochila nas costas e topam qualquer parada, dividindo quartinhos em Ajuruteua ou Algodoal, correspondem à menor fração dos turistas. O maior volume de recursos vêm das famílias ou de pessoas que, justamente por possuírem melhores condições financeiras, não costumam dispor-se a abrir mão do conforto.
Em suma, o governo precisa investir em vários pontos turísticos estratégicos. Quem sabe criando polos em Municípios específicos, que possam recepcionar os turistas e distribuí-los para os centros menores. Mas, em todos eles, o turista precisa sentir que não está desamparado. Esquecer que existe civilização é uma opção. E de poucos. A esmagadora maioria pode até querer esquecer, desde que tenha acesso a ela na hora que desejar.
Enquanto as autoridades não compreenderem isso, dá-lhe Mosqueiro e Salinas. Nossas outras belezas ficarão por aí e nem saberemos de sua existência.

O mito do turismo no Pará

O mês de julho, em Belém, desencadeia uma força atrativa de público em direção aos balneários. Dentre as diversas opções, duas são evidentemente as maiores referências: Mosqueiro e Salinas.
A ilha de Mosqueiro foi descoberta pelo grande público primeiro, tem mais praias, é mais perto e se notabilizou por um certo romantismo expresso pelo epíteto “Bucólica”, que lhe foi cunhado e que hoje não condiz exatamente com a azáfama julina, que envolve trios elétricos, micaretas e automóveis convertidos em aparelhagens. O Município de Salinópolis apresenta o fascínio das praias de mar e se tornou o destino natural da população mais endinheirada de Belém.
Em comum, ambos os locais apresentam incapacidade de suportar o enorme afluxo humano do mês de julho. É nesse momento que se desmascaram os discursos governamentais acerca de investimentos no turismo. Invariavelmente, os investimentos feitos se referem a obras de maquiagem, onde as pessoas possam tirar fotografias. Todavia, o que realmente precisam esses locais é infraestrutura, p. ex.: boas condições de acesso e malha rodoviária interna eficiente; transporte público seguro e suficiente; água encanada, em quantidade que suporte a explosão repentina de usuários; rede de esgoto suficiente, evitando poluição ambiental; iluminação pública; abastecimento de gêneros alimentícios; policiamento ostensivo, inclusive para coibir poluição sonora e venda de produtos pirateados, bem como atendimento idôneo em delegacias, hospitais e demais serviços públicos; fiscalização rigorosa de trânsito.
Reflita e me responda: afinal, nossos points de veraneio oferecem esses elementos? Diga-se, ainda mais, que tal infraestrutura não pode ser concedida somente aos visitantes de Belém, e sim para toda a cidade. Aliás, a prioridade nos investimentos deveria ser para quem mora no local e acaba, de certa forma, prejudicado com a invasão dos forasteiros.

Mundo cão

Semana passada, li uma notícia no Diário do Pará sobre uma família em estado de indigência, dependendo da comiseração pública para ter o que comer. A reportagem destacava que as crianças sequer tinham roupas para vestir. Eu, que me abalo profundamente ao ser confrontado com a miséria, senti-me propenso a levar alguma ajuda aos personagens de tamanho infortúnio. Acabei não indo. Mas alguém foi. E, na saída, essas pessoas foram assaltadas, segundo noticia hoje aquele mesmo jornal.
Mundinho cão, este nosso. Cidadezinha desprotegida, aberta ao mal. Os abnegados doadores provavelmente chegaram ali de carro e, com isso, chamaram a atenção. Devem ter exibido relógios e celulares. Enfim, não importa. Se estivessem de roupa de ginástica, teriam os tênis para perder. O pior é que os malfeitores ainda cogitaram de entrar no barraco para roubar a comida e roupas que haviam sido doadas. É demais para mim.
Fica então a advertência: se for fazer o bem, trate de arranjar uma escolta policial. Mas, se assim for, que será dos desvalidos? A violência urbana é tanta que o cidadão comum não pode mais, sequer, ser solidário?

Uma espécie de limbo

30 de julho. O mês ainda é o das férias e quem entrou nelas provavelmente ainda está. Todavia, já se foram os quatro finais de semana de veraneio. Quem usufruiu de nossas praias de mar ou de rio já está de volta ou voltando, pois o próximo final de semana tomará os dias 4 e 5 de agosto, quando as aulas já terão recomeçado para a maioria. Portanto, acabou-se a festa. É hora de arrumar o que precisa ser arrumado e pôr mãos à obra.
Desejo a todos uma excelente semana, superando tristezas e horrores. Muita paz.

domingo, 29 de julho de 2007

Fim de festa


Acabou-se o que era doce, o que era gostoso, o que ocupou nossos dias e nos deu tantas alegrias. Brasileiro gosta de esporte, mesmo quando não seja dos tradicionais no país. Acima de tudo, gosta de um pretexto para festas ou de fazer festas mesmo sem motivos. O fato é que não faltaram motivos para comemorações. Nossos atletas fizeram bonito, com certeza, principalmente se pensarmos na falta de patrocínio generalizada. Por isso eu os admiro. Mais por isso do que pelo melhor desempenho da história. O governo quer resultados. Eu, não necessariamente: interesso-me mais pela luta e pela superação. O resultado vem na raça.
Mas acabou o Pan do Rio de Janeiro. Amanhã, só a vida normal. E, honestamente, eu não queria estar na pele dos cariocas. Afinal, a bandidagem lá deve provocar um "efeito rebite", ou seja, após duas semanas tendo que conter a criminalidade por causa do excesso de policiamento, a partir de amanhã... salve-se quem puder!
Boa noite e boa sorte.

Acréscimo em 30.7.2007
Se for verdade o prognóstico, anunciado pelo Presidente Lula, de que 75% do aparato tecnológico instalado no Rio de Janeiro permanecerá na cidade, os cariocas terão algum alento. Afinal, o monitoramento por câmeras realmente tem algum potencial inibitório e, quando o crime chega a se consumar, a maior facilidade de identificação dos culpados dificulta a impunidade, que vem a ser um dos estopins da criminalidade.
Boa sorte, novamente, aos cariocas. E mais ainda para nós, aqui, que não contamos com nada disso.

sábado, 28 de julho de 2007

Informação para quem quer e precisa

Enquanto os jornais do Sudeste informam até que o trânsito está lento na rua tal ou qual, aqui em Belém uma pessoa é baleada na porta de sua casa e a imprensa, quando finalmente noticia, conta apenas o fato e acabou. Acompanhei o desenrolar do trágico latrocínio contra Eduardo Lauande pelo 5ª Emenda, pois os jornais tardaram a noticiar. Soube de seu falecimento também por aquele blog e agora, às 21h15, encontrei nas últimas notícias de O Liberal uma notícia a respeito. Já o Diário do Pará só tomou conhecimento do jogo do Remo. Esse é o nosso mundinho...
Se alguém puder me dar alguma informação sobre o velório, agradeço de coração. Com uma imprensa dessas, só mesmo a rádio cipó para nos ajudar. Boa noite a todos.

Adeus a Lauande

A informação foi dada por José Maria Quadros de Alencar, outra grande referência de nossa blogosfera, em comentário no 5ª Emenda:

Lauande não está mais fisicamente entre nós. Perdeu a batalha contra a morte, mas venceu a barbárie. Seu martírio não será em vão. Onde ele agora está, a barbárie não o alcança.Agora é dar força à família, respeitar o legado e continuar a sua luta pela democracia, pela paz, pela justiça, pela liberdade e por tudo que é belo neste mundo cercado de barbárie por todos os lados.

Fica o meu registro de pesar pela violência sem sentido, que nos deixa a todos com um gosto amargo na boca. Mas fica também o desejo de que mais essa morte mobilize a sociedade. Não podemos perder essa esperança.

À família, o meu abraço e minhas orações.

Homens e livros

Monteiro Lobato certa vez disse que um país se faz com homens e livros. Claro, ele era escritor e metido em política. Seus conterrâneos, contudo, não lhe deram muito crédito. O Brasil jamais foi um país de leitores. Quando adolescente, li uma notícia de jornal sobre o hábito da leitura, informando que os argentinos liam, em média, quatro livros por mês. Senti vergonha dos 25 romances que lera no ano anterior (naquela época, eu anotava os nomes dos livros que lia e as datas de começo e fim da degustação; sempre tive essas manias).
De todo modo, eu dei sorte. Até os anos 90, existiu o Clube do Livro e duas pessoas de minha família eram sócias. Recebíamos o catálogo mensal, escolhíamos os títulos de nosso interesse e recebíamos a mercadoria nos correios, pagando lá mesmo as despesas. Uma delícia. Como o Clube tinha autorização das editoras para reproduzir as obras, encontrávamos ali o que não se achava em livraria alguma. Foi graças a ele que li e me apaixonei por O diário de Anne Frank (o primeiro livro que encheu meus olhos de lágrimas) e penetrei no universo de Edgar Allan Poe, H. G. Wells, H. P. Lovecraft e Ray Bradbury. Confesso que lia pouco autores brasileiros, assim como escutava pouco música brasileira. Minha redenção a respeito da arte autóctone aconteceu anos mais tarde. Mas aconteceu!
O Clube do Livro não existe mais. Ignoro o seu destino. Mas veio a Internet e, hoje, compra-se através dela de agulha a avião. Armas de fogo e bombas, também. Fico feliz porque, agora, posso encontrar aquele livro de que ouvi falar anos atrás e sequer sei o nome do autor. Com as palavras certas em sítios de busca, os Googles da vida, fico sabendo todos os dados da obra e posso encontrá-la para aquisição, até fora do país, se preciso. Esse é um lado da tecnologia que me enche de satisfação.
Entretanto, essas facilidades todas não comovem os brasileiros. Este país se faz com bolas de futebol, música ruim e artigos relacionados a sexo. Entendam o que pretendo dizer: o brasileiro médio não perde tempo lendo porque precisa acompanhar, pela TV ou radinho, as últimas do campeonato, qualquer que seja; a música ruim vende muito, muito mais do que os inúmeros artistas de valor que possuímos; e sexo será sempre um chamariz, tanto que me isento de críticas.
Muitos alunos se queixam do preço dos livros. Realmente, o Brasil vende livros por preços que, a par de cínicos e extorsivos, são irreais. Concordo, repito e assino embaixo. Mas uma coisa é o sujeito que não dispõe de recursos para comprá-los. Outra, bem diferente, é o camarada que paga 30 reais para entrar numa boate e que sai quase todos os finais de semana e, depois, reclama do preço dos livros. Aí o problema não é de dinheiro, mas de prioridade. Ou, por outra, é sim um problema de valores: de valores invertidos.
Antes que me torne muito chato dando lições de moral, que nem é a minha intenção (pois aprendi com Maria Clara Machado, autora de teatro infantil, que crianças detestam lições de moral), paro aqui. Tenho um romance de autora brasileira para terminar. Depois conto como foi.

Vem aí o festival de ópera, mas...

Demorou, mas finalmente encontrei, no sítio oficial do governo do Estado, alguma informação sobre o festival de ópera deste ano. Trata-se de uma comunicação de que às 10 horas da manhã do próximo dia 30 haverá uma coletiva de imprensa para apresentar o festival. Mas a aparente falta de zelo com que o evento está sendo tratado começa daí, pois a convocação ou convite anuncia o evento para "30 de agosto". Na verdade, o festival começa em 3 de agosto e o dia 30 sequer é uma segunda-feira, como dito. Um erro pequeno? Não acho. Se eu convido alguém para algo e forneço o dia errado, é como pensar em matar a sede e esquecer de tomar água.
Justiça seja feita aos tucanos, eles criaram e popularizaram o festival de ópera. Acho que "popularizar" é mesmo um termo adequado, pois o preço dos ingressos realmente era pensado para viabilizar maior volume de público. Não dá para montar um espetáculo de porte e cobrar ingressos simbólicos e muito menos franquear. Não é porque posso pagar, mas considero o valor decente. Afinal, qualquer porcariazinha que toca no rádio vem a Belém fazer show e cobra 25, 30 reais, ou mais, e os interessados não reclamam.
Os tucanos fizeram algo correto: pensaram o festival como um empreendimento que deveria ser profissionalizado. Ocorrerá todos os anos, então precisamos de pessoas que o elaborem com visão de futuro, não como um acidente de percurso. Infelizmente, qualquer governo longo demais apodrece, levando consigo seus frutos. A São Paulo Imagem Data reinou como produtora do festival por anos. Nos últimos, como já falei aqui no blog em outras oportunidades, as montagens foram ficando péssimas. A ópera escolhida podia ser ótima e os cantores, um arraso. Mas a montagem era pífia: pobre, pouco criativa, até feia. Não sei se os responsáveis ficaram preguiçosos ou se o governo começou a cortar o dinheiro. O fato é que as montagens de Carlos Gomes, Os palhaços e A flauta mágica me encantaram, mas Madame Butterfly e Carmen me entediaram.
Com a mudança de governo, cresceu não sei de onde um discurso, que já existia, que ópera é elitista e blá-blá-blá. E que petistas, por serem de esquerda, não teriam gosto para isso e acabariam com o festival. Comentário de gente retardada, claro. Um governo, que tenha o que se possa chamar de política cultural, deve viabilizar eventos para todos os gostos e não pode abandonar um projeto que já provou, por A+B, que faz sucesso, que tem público e repercussão nacional. O meu temor é pela qualidade do que será apresentado...
Vêm aí, Il Guarani, de Carlos Gomes; Gianni Schicchi, de Giacomo Puccini e La Cenerentola, de Rossini. Aguardo ansioso.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Violência urbana faz mais uma vítima

Abaixo, postagem que reproduzo do 5ª Emenda:

É gravíssimo o estado de saúde do blogueiro, sociólogo e professor da UFPA Eduardo Lauande, 41, baleado na porta de sua casa ao proteger a esposa de um assalto, no final da manhã.Um único tiro atingiu-lhe o úmero e daí, numa incrível trajetória, perfurou um dos pulmões, os intestinos grosso e delgado, o pâncreas, e um rim.Submetido a uma nefrectomia no Hospital Metropolitano, Lauande está em estado de choque, com severas restrições hemodinâmicas e respiratórias.As próximas 72 horas serão decisivas.Lauande foi diretor de Planejamento da Sepof até a saída de Carlos Guedes, em junho passado.-----Não tenho palavras para expressar minha dor diante de tão arrasadora notícia.-----Atualizada às 15:30.Eduardo Lauande trabalhou na implementação do PTP em sua primeira e decisiva fase. Acompanhou as reuniões nas principais cidades do estado nos meses de março e abril.Na reunião de Castanhal sentiu-se mal e foi levado ao hospital daquela cidade com a pressão fora de controle. Após algumas horas, retornou a Nova Déli. Ao final da noite, voltou a ser internado, quando foi diagnosticada uma séria arritmia cardíaca, obrigando-o a se afastar de funções antes da saída de Carlos Guedes.Lauande é filiado ao PPS. Militante do antigo PCB, Eduardo é Mestre em Sociologia pela UFPA.-----Atualizada às 17:50.Lauande deu entrada no HM no final da madrugada. Resiste há mais de 12 horas, e já recebeu 6 bolsas de sangue.

Estou arrasado. O Blog do Lauande está na minhas leituras diárias, o que me dá a sensação de que o Lauande é como um vizinho meu, alguém que encontro a toda hora. E de repente me deparo com uma notícia dessas. É uma infelicidade, um descalabro!
Espero que a família tome conhecimento desta minha hipoteca de solidariedade, de amizade e de conforto. Torço por vocês e levo a notícia ao conhecimento da minha meia dúzia de leitores, a fim de que saibam em que cidade vivemos, precavenham-se e lutem, também, por mais segurança.

Acréscimo às 21h26 (também copiada do ):
Melhora da pressão arterial (utilizando menores doses de drogas vasoativas) mas ainda com muito desconforto respiratório, necessitando de curare (bloqueador neuromuscular utilizado para paralisar a musculatura respiratória) para se manter estável no respirador. Pela manhã, necessitava de 50 ml/h de noradrenalina para manter boa Pressão Arterial Média (PAM). No momento, utiliza apenas 15 ml/h. Ainda grave, a despeito da pequena tendência de estabilização.-----
Informações das 18:30 horas, repassadas ao blog por e.mail, de um médico irmão que acompanha o caso de perto.

Acréscimo em 24.9.2011
E Lauande teria sido, de fato, um vizinho, não fosse o seu falecimento. Eu me mudei para o mesmo local em que ele morava em junho de 2008 e, desde então, passo quase todos os dias pela rua em que ele vivia.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Os Simpsons: Brasil é um lugar nojento

Uma das melhores cabeças do seriado de animação Os Simpsons, Lisa considera o Brasil o lugar mais nojento em que já esteve. Mas a 20th Century Fox do Brasil não quer polêmicas e censurou a piada, se é que se trata de uma piada. Na hora da dublagem, o texto foi alterado para não melindrar nenhum patriota. Clicando no link, você terá maiores informações.

Emmy Awards


Eu também fiquei decepcionado e aborrecido com a lista de indicados ao Prêmio Emmy deste ano. Para quem não sabe, trata-se do "Oscar da TV" americana. Talvez alguém se pergunte o que eu tenho com isso, já que volta e meia solto petardos contra os americanos. Elementar, meu caro: eu assisto a alguns seriados e, naturalmente, aprecio o sucesso e o reconhecimento que alcancem. Acima de tudo, fiquei indignado com a pobreza das indicações de Lost, minha atual preferência. O mesmo sentimento deve ter motivado Bruno Tapajós a produzir a tira acima, reproduzida na cara dura. Notem que é justamente Lost que ele usa para fazer sua crítica.
Os seriados são, para os americanos, o que as novelas são para nós, brasileiros. Com a diferença que existe um número muito maior de canais produzindo e o dinheiro rola solto. Daí que, todos os anos, há dezenas e dezenas de seriados em exibição. Diante da profusão de material, torna-se inviável um exame mais minucioso das obras, ainda mais porque cada uma delas tem, em média, mais de 20 episódios por temporada. A consequência? Cada emissora indica os produtos, episódios, atores e etc. que deseja ver na disputa e os jurados assistem apenas ao episódio que supostamente justificaria a indicação. Com isso, muitas vezes a decisão é tomada após o crítico ver nada além de 45 minutos de uma história.
Certos seriados, como CSI, têm episódios independentes, apesar de haver um fio condutor. Mas outros, como Lost, são histórias únicas divididas em capítulos. Se o acompanhamento já é difícil para quem não perde um pedacinho do programa, imagine para quem assiste a um trecho lá pelo meio.
Como avaliar a qualidade do roteiro? Como dimensionar a evolução de um ator?
Compreendo que não dê para ver tudo, mas ser do jeito que é, também, entra na conta da palhaçada. E as injustiças aparecem. Fica aqui o meu protesto. Ele não chegará ao conhecimento de quem devia. Mas pelo menos eu falei.

Contra o exame de Ordem, os dentistas

Quer arrumar polêmica? Apresente suas opiniões sobre o exame de Ordem. Contra ou a favor, tanto faz, você fará inimigos de qualquer jeito. Essa é uma guerra famosa no meio jurídico, por isso você deve ter estranhado o título da postagem, suscitando uma rejeição por parte dos dentistas. Mas é isso mesmo. Só que, naturalmente, eles não estão nem aí para os bachareis em Direito. O caso é que os órgãos da classe odontológica manifestaram-se contrariamente à criação de um exame de proficiência para essa profissão. Vejam a notícia abaixo, publicada no sítio do Conselho Federal de Odontologia:

CFO e os Regionais do Distrito Federal e de Goiás participaram dia 21 de junho, na Câmara dos Deputados, de Audiência Pública sobre a conveniência de uma lei geral sobre a exigência de exame de proficiência para o exercício profissional. Realizada na Sala de Comissões da Câmara dos Deputados, a pedido do deputado Fernando Coruja (PPS-SC), a audiência foi realizada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania e reuniu diversos parlamentares, além de entidades odontológicas e conselhos profissionais. Os participantes discutiram a conveniência de uma lei geral sobre a fiscalização que é feita pelos conselhos profissionais e a exigência de exames de proficiência como condição para exercício profissional. As entidades odontológicas se posicionaram contra o exame de ordem, por entenderem que a responsabilidade pela abertura de faculdades é do Ministério da Educação e considerarem injusto que um estudante seja reprovado após freqüentar uma graduação por cinco anos. Por outro lado, as entidades são favoráveis a realização de uma reciclagem a cada 5 anos, devido aos avanços tecnológicos. Segundo o vice-presidente do CFO, Ailton Diogo Rodrigues, “não será através de um exame de ordem que saberemos se o egresso da faculdade está ou não preparado para o mercado, mas sim pela avaliação criteriosa tanto em relação à abertura de novas faculdades como sobre as já existentes. Os conselhos de Odontologia não podem e não devem assumir uma responsabilidade que deveria ser do MEC”.

Dia desses, eu e um comentarista fomos criticados, aqui no blog, por sermos favoráveis ao exame de Ordem e não apresentarmos argumentos comprobatórios de sua conformidade à Constituição Federal. Por isso, fiz questão de publicar a notícia acima, cuja premissa é a mesma alegada no caso da advocacia. Vamos ver se consigo deixar os opositores do exame um pouco mais assanhados.

O país do sorriso

O país do sorriso (Das Land des Lächelns) é uma opereta composta em 1929 pelo húngaro Franz Lehar, o mesmo da famosa A viúva alegre (Die lüstige Witwe). Não creio que ele tivesse em mente o Brasil ao compor tal obra. Entretanto, pelo visto, os sempre bem humorados brasileiros andam querendo o título para si.
Sorri o presidente da Agência Nacional de Aviação Civil — ANAC, ao ser acossado pelos deputados componentes da CPI da crise aérea.
Sorri o presidente Lula ao dizer que trocou o ministro da Defesa porque Waldir Pires merecia descansar devido a sua idade, ao passo que Nelson Jobim estava em casa sem fazer nada, exceto atrapalhar a esposa.
Sorri o novo ministro, ao dizer que aceitou o cargo porque recebeu as "autorizações maritais".
E vão sorrindo, sorrindo, enquanto o país anda com a boca que é um traço reto e fino na cara. Comprometem até a poesia de Charles Chaplin, em sua célebre canção Smile, que por estas bandas ganhou uma comovente versão de Djavan ("sorri / vai mentindo a tua dor / e ao notar que tu sorris / todo mundo irá supor / que és feliz").
Eu era criança, mas muito criança, quando escutei pela primeira vez o aforismo muito riso é sinal de pouco siso. Não entendia o significado, até por ignorar o que seria "siso". Levei anos para saber que sisos eram dentes que nasciam tardiamente, provocando muitas dores. Então talvez "pouco siso" significasse não ter os tais dentes dolorosos e por isso as pessoas riam. Depois soube porque eram chamados "dentes do juízo" e finalmente entendi tudo.
Neste país, há muita gente rindo porque lhes falta siso. Inclusive, segundo informam os odontólogos, no sentido dentístico da palavra.

Sextas-feiras paraenses

Não sei em que calo Ana Júlia pisou na emissora de Silvio Santos, mas não é de hoje que ela sofre umas vergastadas de lá. Esta madrugada, p. ex., quase uma da manhã, o simpático Carlos Nascimento apresentava o Jornal do SBT e dedicou uns minutinhos para falar do decreto governamental facultando o expediente às sextas-feiras do mês de julho, nas repartições públicas estaduais. Pessoas foram entrevistadas para demonstrar inconformismo com a ausência de serviços necessários. Não bastasse a matéria, ao final o apresentador fez uma crítica, destacando que a medida não seria má se não fosse custeada pelo contribuinte e se valesse para todos os trabalhadores.
A assessoria de comunicação da governadora, citada nominalmente na reportagem, e que teve seu nome exibido na tela, quando foi exibido o decreto publicado no Diário Oficial, limitou-se a dizer que a decisão oficializava uma prática já consagrada no Estado, por ocasião das férias de julho. A reportagem tinha uma clara intenção de atingir Ana Júlia, tanto que sugere um governo reincidente em medidas polêmicas, mencionando o caso da dispendiosa reforma da casa alugada para servir de residência à governadora.
Mais uma vez, acredito que o governo fez por merecer a crítica. Pessoalmente, não acho que as sextas-feiras devessem ser facultadas. Bem a propósito, esse é mais um eufemismo, pois "facultado" significa que existe opção mas, nesse contexto, significa "liberado" (ou "desista, não trabalharemos de jeito nenhum"). Também sou contra esses enforcamentos por conta de feriados às quintas ou terças. E falo também como trabalhador. Como professor, muitas vezes sou prejudicado em minhas atividades pelo excesso de liberações, que me impedem de dar regularidade a um trabalho que exige concentração. Mas o brasileiro é permissivo. Muita gente desaprovará a minha opinião.
Enfim, causa-me estranheza que a matéria do SBT tenha sido exibida na madrugada de 26 de julho, véspera da última sexta-feira a ser "facultada". Se ela tinha alguma intenção nobre, creio que está perdida, pois nada mudará. Não teria sido mais sensato levar o caso ao conhecimento público no início do mês, já que o decreto foi publicado no dia 4?
Mistééééérios de D. Milú.

PS — Por alguma razão, o caso ganhou repercussão agora, já que a Folha também publicou, hoje, notícia a respeito. De quebra, nós, paraenses, ganhamos fama de vagabundos em cadeia nacional.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Fênix


Maurren Maggi, no salto em distância, é ouro. E, com isso, o esporte brasileiro ganha mais uma bela história de superação. Afinal, houve quem apostasse no encerramento de sua carreira, por ter sido flagrada no exame antidoping. A moça se defendeu, verberou por sua inocência, mas a punição ficou. Mas o tempo, aquele que opera milagres, passou e ela investiu em si mesma. O resultado? Ouro.
Com isso, seu nome está escrito na história esportiva brasileira. Maggi será lembrada por seus grandes feitos. Parabéns. É um exemplo a ser seguido.

Dia mundial do perdão

Não sei quem nem por que inventou, mas hoje é o dia mundial do perdão. Trata-se de um artigo raro, que todos nós precisamos tanto adquirir como receber, em alguma medida. Portanto, meus caros, façam uso dele.
E um bom dia.

Acréscimo em 26.7.2007:
Acolhendo a manifestação do Francisco Rocha Jr., que considerou inadequada esta postagem sobre perdão imediatamente após a que trata do matador da CEASA, o qual merece severa punição, manifesto publicamente que, de fato, a localização dos textos foi casual.
No mais, acredito naquela máxima bíblica que diz vive como os homens de tua época; como eles deveriam viver e não como eles vivem. Isso, na prática, significa que devemos assumir e exigir todas as responsabilidades inerentes à nossa sociedade e ao nosso tempo. Assim, criminosos devem ser punidos, mesmo que suas vítimas decidam perdoá-los.
Ratifico, pois, que todos devemos cultivar o perdão, sem que isso represente a abdicação de responsabilidades e, muito menos, a consagração de impunidades.
Um novo abraço e um novo bom dia.

Serial killer à solta

Ontem foi oficialmente confirmado que o cadáver encontrado no último dia 20 de dezembro, nas matas da CEASA, pertencia também a um adolescente desaparecido desde quatro dias antes. Com isso, agora são três, e não apenas duas, as vítimas de um assassino em série que assustou a cidade e desapareceu. Mas está livre e não identificado. Até a famosa escritora Ilana Casoy — administradora que, por interesse próprio, tornou-se especialista em assassinos seriais — esteve em Belém para ajudar a traçar um perfil do matador e conclui tratar-se, realmente, de um serial.
A esta altura, vários elementos corroboram essa conclusão. Primeiro, a seleção das vítimas, sempre adolescentes do sexo masculino, revelando que o agressor tem motivação bem delimitada. Segundo, o modus operandi: as vítimas eram escolhidas através da Internet, a que tinham acesso por meio de lan houses. Nelas, sem ingerência familiar, eram cooptadas pelo agressor, com o qual acabavam se encontrando. O matador, portanto, não é uma pessoa completamente sem instrução e recursos. Terceiro, a violência. Levadas sempre ao mesmo lugar — as matas da CEASA escondem bem o crime e o corpo, mas ficam na cidade e chegar e sair dali é bem fácil —, eram barbarizadas e emasculadas. Os delitos assumem, assim, ares ritualísticos.
Por fim, após intensa exploração da imprensa e até mesmo uma promessa das autoridades de que os crimes seriam elucidados em seis meses (o que não ocorreu), o assassino desapareceu. Normal. É muito frequente, entre os seriais, interromper os ataques por um tempo, até por anos, até desejarem atacar de novo.
Eu não teria a leviandade de dizer que a polícia não foi eficiente nas investigações. Sabemos, apenas, que não foi eficaz. E também sabemos que a maior consequência desses delitos horríveis recaiu sobre os proprietários de lan houses.
Evidentemente, como qualquer estabelecimento comercial que atrai um público jovem e manipulável, as lans precisam de criteriosa regulamentação e fiscalização. Sem isso, tornam-se espaços fáceis para exploração sexual e tráfico de drogas, dentre outros problemas. Algumas sequer tinham alvará de funcionamento e aí, convenhamos, é grande a cara de pau. Todavia, não podemos ignorar um fato: não foram as lan houses que mataram esses garotos, e sim um homem com objetivos bem definidos (para ele mesmo, claro). Se ele não dispusesse desses locais, buscaria suas vítimas em pontos de ônibus, na saída de escolas, em campos de futebol, entre os pequenos jornaleiros — onde quer que houvesse meninos. E se ele realmente quisesse a privacidade da internet, bastaria mudar o foco, alcançando meninos na intimidade de seus lares, via Orkut, MSN e afins.
Portanto, precisamos educar as nossas crianças sobre os riscos que a internet favorece. Nossas autoridades precisam ser rigorosas com as lans. Mas, acima de tudo, devem concentrar-se em identificar um matador que age livremente e agiria de qualquer jeito, podendo repeti-lo a qualquer momento, a menos que sejam detido.
Por isso, sempre insistirei: o governo estadual precisa investir pesado em investigação criminal. Não podemos continuar nessa de testemunhas e testemunhas. É a ciência que precisa elucidar os fatos ocorridos na calada da noite.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Família ou escola: quem deve educar?

Onde termina a educação recebida pelos meios formais (escola, universidade) e onde começa a educação que, como se diz, se aprende em casa?

Esta é a indagação que a jornalista Renata Cafardo formula em seu recém-criado blog, A BOA (E A MÁ) EDUCAÇÃO, hospedado no portal de O Estadão, tomando como premissa os dois altos funcionários federais que fizeram gestos obscenos, ao saberem que o acidente com o avião da TAM teria causas não atribuíveis ao governo.
Por enquanto, o blog tem apenas duas postagens, mas já um bom volume de comentários, capazes de nos levar a reflexões interessantes. Especializada em educação, Cafardo promete. Recomendo o blog.

Em código

Graças à informação precisa de Rafael Maia, localizei pela internet o texto a que me referira na postagem Filosofia de para-choque, do último dia 19. Valeu, Rafael!

Em código
(Fernando Sabino)



Fui chamado ao telefone. Era o chefe de escritório de meu irmão:
- Recebi de Belo Horizonte um recado dele para o senhor. É uma mensagem meio esquisita, com vários itens, convém tomar nota: o senhor tem um lápis aí?

- Tenho. Pode começar.
- Então lá vai. Primeiro: minha mãe precisa de uma nora.
- Precisa de quê?
- De uma nora.
- Que história é essa?
- Eu estou dizendo ao senhor que é um recado meio esquisito. Posso continuar?
- Continue.
- Segundo: pobre vive de teimoso. Terceiro: não chora, morena, que eu volto.
- Isso é alguma brincadeira.
- Não é não, estou repetindo o que ele escreveu. Tem mais. Quarto: sou amarelo, mas não opilado. Tomou nota?
- Mas não opilado - repeti, tomando nota. - Que diabo ele pretende com isso?
- Não sei não, senhor. Mandou trasmitir o recado, estou transmitindo.
- Mas você há de concordar comigo que é um recado meio esquisito.
- Foi o que eu preveni ao senhor. E tem mais. Quinto: não sou colgate, mas ando na boca de muita gente. Sexto: poeira é minha penicilina. Sétimo: carona, só de saia. Oitavo...
- Chega! - protestei, estupefato. - Não vou ficar aqui tomando nota disso, feito idiota.
- Deve ser carta em código ou coisa parecida - e ele vacilou: - Estou dizendo ao senhor que também não entendi, mas enfim... Posso continuar?
- Continua. Falta muito?
- Não, está acabando: são doze. Oitavo: vou mas volto. Nono: chega à janela, morena. Décimo: quem fala de mim tem mágoa. Décimo primeiro: não sou pipoca, mas também dou meus pulinhos.
- Não tem dúvida, ficou maluco.
- Maluco não digo, mas como o senhor mesmo disse, a gente até fica com ar meio idiota... Está acabando, só falta um. Décimo segundo: Deus, eu e o Rocha:
- Que Rocha?
- Não sei: é capaz de ser a assinatura.
- Meu irmão não se chama Rocha, essa é boa!
- É, mas foi ele que mandou, isso foi.
Desliguei, atônito, fui até refrescar o rosto com água, para poder pensar melhor. Só então me lembrei: haviam-me encomendado uma crônica sobre essas frases que os motoristas costumam pintar, como lema, à frente dos caminhões. Meu irmão, que é engenheiro e viaja sempre pelo interior fiscalizando obras, prometera ajudar-me, recolhendo em suas andanças farto e variado material. E ele viajou, o tempo passou, acabei me esquecendo completamente o trato, na suposição de que o mesmo lhe acontecera.
Agora, o material ali estava, era só fazer a crônica. Deus, eu e o Rocha! Tudo explicado: Rocha era o motorista. Deus era Deus mesmo, e eu, o caminhão.

domingo, 22 de julho de 2007

Venezuela não é Brasil

A nova de Hugo Chávez é ameaçar expulsar do país todos os estrangeiros que "denigram a imagem da Venezuela". A novidade foi anunciada quando o fanfarrão comentava a atitude do presidente da Organização Democrática Cristã da América (ODCA), o mexicano Manuel Espino, que declarou, em coletiva de imprensa realizada em Caracas, que o governo venezuelano é "um exemplo da tendência demagógica, populista e autoritária que atenta contra as liberdades e os direitos fundamentais dos cidadãos".
Eu, que sou bicho, entendo que a crítica, embora contundente, não foi de baixo nível e está nos limites do direito de crítica (liberdade de expressão) assegurado pelas constituições mundo afora, pelo menos dos países que se pretendem democráticos. Claro que sempre é muito complicado criticar questões internas de um país, dentro de seu próprio território. Todavia, não se pode perder de vista que o governo Chávez não é um problema meramente interno. Basta que se vejam as grandes polêmicas envolvendo a América Latina como um todo, do qual ele e seu colega Evo Morales têm sido protagonistas.
Num mundo em que a liberdade não seja apenas um verbete de dicionário, qualquer ameba saberá que um presidente da república não pode re-eleger-se indefinidamente. Isso, por sinal, atenta contra a própria essência do republicanismo, que tem no revezamento no poder um de seus principais atributos. E não basta haver mecanismos constitucionais e legais para assegurar as pretensas liberdades. É preciso que sejam asseguradas na prática. Do contrário, quem estiver no poder vai se locupletar, espoliar, fraudar e perseguir, tornando a liberdade uma absoluta falácia.
Para este bicho, a atual Venezuela é uma falácia.
Em 2005, o jornalista Larry Rohter escreveu uma reportagem depreciativa sobre o Brasil, falando mal de Lula, pessoalmente, destacando um certo gosto do presidente pela marvada. Numa atitude que eu não tomaria, mas valendo-se de prerrogativas legítimas de nosso ordenamento jurídico, Lula anunciou que o jornalista seria expulso do país. Foi um Deus nos acuda. Afinal, aqui é a casa da mãe Joana. Além do mais, o passado de lutas democráticas de Lula, para a generalidade dos brasileiros, não permite que ele tome medidas enérgicas que soem antidemocráticas. Foi mais quem ficou contra ele. Ainda me lembro do Jornal Nacional defendendo a liberdade de imprensa — um dos mais férteis argumentos para crimes, chicanas e patifarias que este país possui.
Definitivamente, Venezuela não é Brasil. O que, sob certos aspectos, é bom. Tanto FHC quanto Lula foram acusados de governar através de medidas provisórias e de engendrarem uma espécie de golpe branco de Estado. Até agora, nada aconteceu. Está difícil estabelecer uma nova ditadura neste país. Afinal, daqui a pouco começam as preocupações com o Natal e, passado este, o ano novo só começa depois do carnaval. Não há projeto político que sobreviva ao jabaculê dos brasileiros.
Devemos agradecer por isso?

Leonor

Estava eu de bobeira em casa, agora mesmo, quando me lembrei de uma canção gravada pela Zélia Duncan, no DVD Eu me transformo em outras, projeto que já rendera um dos melhores CD que já comprei. Por sinal, foi do repertório desse CD que saiu a canção (Nova ilusão) que minha esposa cantou para mim em nosso segundo casamento. Então pus o DVD e assisti à excelente apresentação do samba Leonor, composto pelo famoso Itamar Assumpção. Compartilho com os amigos a letra. Vale a pena conhecer o samba.



Devagar com esse andor, Leonor
Casamento é muito caro
Sou compositor, cantor, também sou autor
Falo mais de flor que de dor, Leonor
Mas não sou Roberto Carlos
Não tenho carro de boi, Leonor
Nem outro tipo de carro
Meu cachê é um horror, Leonor
Não sobra nem pro cigarro
Não tenho nem gravador, Leonor
Meu São Benedito é de barro
Meu menu é feijão com arroz
Que divido com mais dois, Leonor
Quando não falta trabalho
Viver somente de amor, Leonor
É tão lindo quanto precário
Tem que morar de favor, Leonor
Lá no bairro do Calvário
O que eu tinha de valor, Leonor
Dois gatos, três agasalhos
Cachecol de lã, gibis do Tarzan
Gibis de terror, cobertor
Quatro jogos de baralho
Um macacão furta-cor, Leonor
Uma colcha de retalhos
O que não está no penhor, Leonor
Foi pra casa do Carvalho

Uma visão sobre a mesquinharia humana


Ler Saramago não é fácil. Não porque suas ideias excedam às nossas capacidades de compreensão ou porque, motivo fútil, seja difícil enfrentar um português de Portugal tão tradicional. Um dos maiores charmes de suas obras é, justamente, aquele idioma castiço, permeado de ironias, chistes, aforismos antigos e imagens as mais malucas, tais como "em um instante se tornaria o paraíso inferno, segundo lugar este, consoante afirmam autoridades, em que o cheiro pútrido, fétido, nauseabundo, pestilento, é o que mais custa a suportar às almas condenadas, não as tenazes ardentes, os caldeirões de pez a ferver e outros artefactos de forja e cozinha". Ou "só houve que ter cuidado em não deixar escapar das mãos o corpo da pobre criatura, o trambolhão deixá-la-ia sem conserto, sem falar das dores, que depois da morte são piores" (Ensaio sobre a cegueira, Companhia das Letras, pp. 257/258 e 286, destaquei).
Há algum tempo, li As intermitências da morte, deliciosa obra que aborda o absurdo e o fantástico, eis que a morte (escrita com letra minúscula, pois existe uma Morte maior, que essa não havemos de querer saber do que se trata), ofendida por tanto que dela se fala mal, simplesmente decide que ninguém mais morrerá. E manda uma carta avisando. Todos ficam jubilosos, mas rapidamente as consequências de ninguém morrer começam a aparecer. E são terríveis, a começar porque os velhos continuam velhos, os doentes continuam doentes e os moribundos continuam moribundos. Vislumbra-se o colapso do sistema previdenciário, dos bancos e, especialmente, das seguradoras.
Eis que, em meio a esse cenário, Saramago cria a máfia, uma organização criminosa em que gente da pior espécie decide tirar proveito da desgraça alheia para enriquecer, à custa de coações e violências. Lembro-me do desconforto que senti quando ele introduz esse tema no livro. Com o tempo, não apenas os cidadãos, mas o próprio governo começa a ceder às pressões dos criminosos — perspectiva que me enlouquece de raiva. Assim, um romance de pura ficção, baseado em realismo fantástico, revela-se como um romance sobre a alma humana. Há uma guinada final, quando a morte se torna o personagem mais importante, mas isso é a parte final do livro e quem quiser que o leia.
Esta madrugada acabei de ler Ensaio sobre a cegueira, que também parte de uma premissa aberrante: um dia, sem mais nem menos, os habitantes de um país, apesar de até aí terem gozado de perfeita saúde visual, começam a ficar cegos. E é uma cegueira diferente: branca, em vez de preta, como se estivessem mergulhados num mar de leite. Acredita-se que o mal é contagioso, por isso os primeiros doentes são recolhidos a um antigo manicômio e, ali, Saramago constroi um ambiente de desespero e podridão que, honestamente, há de machucar leitores mais sensíveis. E nesse cenário surge o quê? Um grupo de pessoas que, por possuírem uma arma e balas, decidem que venderão a comida que o governo dá aos internados e, mais tarde, decidem que não querem apenas dinheiro: as mulheres também deverão servi-los sexualmente. Repugnante.
Se em As intermitências da morte a máfia já revoltava, em Ensaio sobre a cegueira a presença desses malvados, como são chamados, doi ainda mais. Porque o caráter fantasioso do primeiro não permite que nos esqueçamos de se tratar de mera ficção. A premissa do livro torna aquela situação manifestamente impossível, diluindo nosso sofrimento. No segundo, porém, a doença proposta também é improvável, até impossível, mas é inevitável pensar em hipóteses mais plausíveis. Num mundo de ebola, gripe aviária e pneumonia asiática, para citar epidemias recentes que ameaçaram o planeta como um todo, não surpreenderia se, em algum país, uma grande quantidade de pessoas fossem acometidas de algum mal e segregadas, piores do que prisioneiros criminosos, no interesse da coletividade. E aí sofressem todo o horror que o livro descreve — em síntese, passar a viver como bichos, ou pior do que estes, perder a dignidade e, por fim, a própria humanidade.
Se a intenção do artista é provocar emoções, Saramago é um vencedor. Isso não é novidade, claro. Por meio desse Ensaio, ele consegue traçar um panorama desgraçadamente verdadeiro de como a humanidade consegue ser corrupta, cruel e egoísta. Por isso fui tão atingido. Mas não pensem que o livro trata disso, senão haverá quem desista de lê-lo por conta da já mencionada sensibilidade excessiva. O que mencionei acima é o pano de fundo. A narrativa em si acompanha um grupo de sete pessoas que se mantém unido, amigo e fiel. O bem que fazem um ao outro torna a obra mais leve e fornece aquela esperança que, para muitos leitores, torna-se uma necessidade. Acima de tudo, a obra fala em vencer adversidades e em lutar por não se esquecer de que, sim, somos seres humanos.

Resultado da primeira enquete


Obrigado às pessoas que participaram. Votem, por favor, na segunda enquete, sobre leitura.

sábado, 21 de julho de 2007

Do vício à educação

Do Repórter Diário de hoje:


Caça-educação

Escolas de Belém estão na expectativa de que a inovação chegue por aqui. Na semana passada, a Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), no Rio de Janeiro, apresentou protótipos de computador para uso educacional, montados a partir de caça-níqueis apreendidos pela Polícia Federal. Os computadores atenderão alunos da rede estadual em projeto de inclusão digital. Para transformar cada máquina, os custos não passam de R$ 60,00. Do total de 10 mil máquinas apreendidas no Rio e que seriam destruídas, 130 já foram convertidas e estarão disponíveis para uso nas escolas a partir do dia 4 de agosto.

Copo virado

A parte da máquina antes usada para colocar copos é retirada e um espaço para teclado e mouse é adaptado. Os novos computadores funcionam com o sistema operacional Linux e recebem um modem para permitir o acesso à internet.

Graças a Deus, há pessoas que usam a inteligência para o bem. Que ideia maravilhosa essa, de reaproveitar um material que seria destruído, para fins educacionais. O equipamento, assim, sai do universo vicioso dos bingos e afins e vai ajudar as futuras gerações. Creio que, além dos malandros empresários do setor, apenas as velhinhas viciadas desaprovarão a iniciativa.

Nossas cores no pódio


Se algum dia eu começar a escrever sobre moda, por favor, comuniquem a minha família, para que possa tomar as providências quanto à internação. Meu foco é mesmo em algo maior. É que, outro dia, eu reclamava do uniforme de alguns atletas, p. ex. da ginástica e de algumas seleções de modalidades coletivas, que eram totalmente azuis, ou em azul e branco. Quando se pensa em Brasil, que cores vêm à mente? Verde e amarelo, claro. Todo mundo sabe. Fala-se até na famosa "camisa canarinho", prova irretorquível de que, mais do que o verde, o amarelo deve aparecer. Sugiro aos responsáveis pela definição dos uniformes de nossos atletas que levem isso em consideração.
Daí que preciso elogiar o belíssimo uniforme da seleção feminina de handebol, que acabou de ganhar a medalha de ouro batendo as cubanas. Vê-se, acima, em imagem do último jogo, o uniforme predominantemente amarelo, com o verde em destaque. Na região dos ombros, uma faixa azul garante um charme a mais. Maravilhoso. Quem o concebeu está de parabéns.
Não sou acostumado a handebol e vi apenas uma parte do jogo. Sem dúvida, um jogaço, que teve um atrativo a mais: a goleira, uma verdadeira heroína, que atende pelo mimoso nome de Chana Masson. É sumariamente impossível evitar os chistes, por isso vamos a eles.
Por causa do jogo de hoje, o Brasil inteiro gritou "Chana! Chana!" Todos querem Chana. Todos adoram Chana. Que nunca nos falte Chana!
Mas a comentarista da Band ainda fez o favor de, em meio a uma explicação, dizer que haviam passado vaselina na Chana... É, minha filha, às vezes é necessário passar vaselina na Chana. Mas o importante é que o Brasil ganhou mais um ouro e está tendo um dia fantástico. Avante!

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Dia do amigo

Segundo a Wikipedia, o dia do amigo seria uma criação argentina, surgida através do Decreto n. 235/79, por iniciativa de Enrique Ernesto Febbraro, que se teria inspirado na chegada do homem à lua, em 20 de julho de 1969, "considerando a conquista não somente uma vitória científica, como também uma oportunidade de se fazer amigos em outras partes do universo". Consta que, durante um ano, Febbraro divulgou o lema "meu amigo é meu mestre, meu discípulo e meu companheiro". Que viagem, não?
O fato é que, mesmo sendo uma viagem, a ideia se alastrou pelo mundo. Em muitos países, como o Brasil, foi mantida a mesma data. Em alguns, como os Estados Unidos, comemora-se o International Friendship Day no primeiro domingo de agosto.
Não encontrei melhor explicação que esta para a origem da comemoração que, pelo menos, tem a virtude de não ser mais uma data com origens e fins precipuamente comerciais. Não estranha que a iniciativa tenha feito sucesso. Afinal, o que seria da vida, de cada um de nós, sem a experiência abençoada, louca, feliz da amizade?
Feliz dia do amigo!

Lotação

Hoje o inferno ganhou mais um habitante.
Malvadeza desce às profundas para receber a única justiça que ainda existe neste mundo, especialmente neste país: a divina.
Infelizmente, foi sozinho.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Emoções contraditórias

Anos atrás, eu e um grupo de amigos queridos éramos voluntários no Hospital Ophir Loyola. Todos os domingos, à tarde, visitávamos o setor de oncologia pediátrica para fazer atividades de recreação com os pacientes e seus familiares. A perspectiva era, simplesmente, dar algum alento a pessoas em situação tão adversa. Não tínhamos uma atuação assistencial direta e, naquela época, já vai mais de uma década, também não existia a AVAO, portanto a condição dos doentes e famílias era bem mais difícil.
Lidar com aquele infortúnio nunca foi fácil para nós, mas tínhamos um papel a cumprir. Se íamos levar alegria, dávamos o nosso melhor, ainda que frequentemente o coração apertasse. Jovens e inexperientes, cometíamos os nossos erros, claro. Como em certa tarde, para a qual havíamos programado um pouco de cantoria. A atividade havia sido decidida em uma de nossas reuniões periódicas, então chegamos e a cumprimos. Mas ao deixarmos a enfermaria já tínhamos detectado a nossa falha. Naquele dia, uma criança passava muito mal e sua mãe, mortificada, velava-lhe a cabeceira. De onde estava, muda e encolhida, lançava de vez em quando um olhar sobre a nossa festinha.
Chegamos à conclusão de que, querendo ou não, tripudiáramos do sofrimento daquela mãe. O que lhe terá passado pela cabeça, naqueles momentos já tão próximos da partida de seu filho? Terá se sentido ofendida ou até abandonada? Não me lembro de alguém ter-lhe feito um pouco de companhia. Envergonhados, prometemos tomar cuidado para nunca mais realizar qualquer atividade que pudesse denotar indiferença ao sofrimento de alguém naquela enfermaria.
Lembrei-me desse episódio hoje, confrontando os dois temas mais evidentes na mídia brasileira há dois dias: o Pan e o acidente da TAM, sendo que este desbancou o primeiro em importância desde o primeiro momento. Será que os nossos jornalistas estão enfrentando um dilema semelhante ao do meu pequeno grupo de voluntários? Será que desejam fazer a alegria dos brasileiros noticiando as conquistas esportivas mas se sentem tolhidos? Será que comemorar as vitórias do Pan pode ser interpretado como desrespeito às vítimas, suas famílias e, de um modo geral, às pessoas que estão mais profundamente feridas pela tragédia? Como compatibilizar o interesse jornalístico de uma população tão grande?
Pessoalmente, já comecei a rejeitar as matérias sobre o acidente. Elas estão muito focadas em especulações sobre as causas ou em ressaltar o sofrimento das famílias. Quanto ao primeiro aspecto, somos forçados a esperar. Quanto ao segundo, não considero muito bom exibir tanta dor. Sabemos que ela existe, portanto não precisamos repetir a todo momento as cenas de grito, choro, desabafo. Isso maltrata a sensibilidade do público e não traz nenhuma utilidade concreta (suponho).
Assim, sem querer ser alienado e muito menos leviano, gostaria de mais conquistas no Pan. E que elas tivessem destaque. Tanto se propala que o esporte é uma das poucas alegrias do brasileiro, então que continue sendo.
Meus respeitos e homenagens aos envolvidos num e noutro evento.

Acidentes aéreos

Ontem, uma pessoa importante me pediu que escrevesse sobre o acidente do voo JJ 3054, da TAM. Fiquei satisfeito por ver alguém interessado na minha opinião mas, lamentavelmente, ainda não poderei atender ao pedido. O motivo: tenho um certo bloqueio para falar de temas sobre os quais todo mundo está falando. São tantas as abordagens, que eu mesmo fico sem saber ao certo por onde começar. Além disso, tudo ainda está muito recente e as informações vêm chegando aos poucos, recomendando alguma cautela. E é justamente sobre cautela que gostaria de fazer uma pequena divagação.
Dez meses atrás, quando caiu o avião da Gol, gritou-se pelo país afora: o jatinho Legacy colidiu com o Boeing. Como o transponder do jatinho estava desligado, a culpa do acidente foi dos pilotos estrangeiros. Apimente-se isso com uma boa dose de xenofobia, instalou-se um clima de beligerância. Mais tarde, foi aventada a falha de alguns controladores de vôo do CINDACTA-1, em Brasília — que, de fato, acabaram formalmente acusados no relatório da CPI. Por fim, a questão evoluiu para algo muito maior, cuja responsabilidade não pode ser atribuída aos pilotos estrangeiros nem aos controladores de voo: a deficiente infraestrutura para o controle de voo no Brasil, passando por softwares desafados, equipamentos antigos, pouco pessoal, jornada excessiva de trabalho, etc.
Hoje, estas questões, surgidas por último, são o fator mais importante para o caos aéreo que se instalou desde aquela época.
Cai o avião da TAM. Um país esgotado pelas dificuldades e pela humilhação nos aeroportos, sequioso de vingança contra o governo, grita imediatamente: a pista novíssima do aeroporto de Congonhas ainda não dispõe de grooving, sendo essa a causa do acidente, tomando-se como reforço o fato de terem ocorrido várias derrapagens recentes. Ontem à noite, contudo, imagens da INFRAERO mostram que o avião tocou a pista com excesso de velocidade. Fica estabelecida a dúvida razoável: teria havido falha humana?
Sabemos que é improvável um acidente aéreo, mormente de grandes dimensões, possuir uma causa única. Clique aqui para ler um texto bem interessante a respeito. Os fatores provavelmente se somaram e a falta do grooving ainda será declarada, estou certo, como uma das causas reais da tragédia. Mas sendo idônea, terá sido suficiente? Será que, mesmo sem grooving e com pista molhada, a aeronave teria conseguido frear se o pouso tivesse ocorrido com a velocidade correta? Terá havido uma falha mecânica, a comprometer a frenagem?
Nenhum brasileiro agüenta mais escutar esse discurso-Lula de temos-que-apurar-pois-não-podemos-culpar-ninguém-sem-provas. Eu também estou cansado disso. Todavia, ele é verdadeiro. Se abstrairmos o fato de que o seu uso, há anos, tem sido apenas para proteger os maiores safardanas da nação; se lembrarmos que ele é uma conquista da civilização para proteger o cidadão comum — você e eu — do arbítrio do Estado, lembrar-nos-emos da necessidade de cautela. Não podemos, hoje, dizer o que derrubou o avião da TAM. Ainda precisamos ter paciência, nesse particular. Para somente depois, com as certezas, exigir o que for necessário.
Já cansado, também, de atirar pedras nos governos, pergunto-me o que nós, cidadãos, estamos dispostos a fazer para mudar esse estado de coisas. E não falo apenas em votar melhor, hipótese sempre lembrada e de difícil concretização, mas em botar a mão na charrua e fazermos alguma coisa concreta, como cidadãos verdadeiramente membros de uma pólis. Mais do que votos, que sempre podem ser traídos, é a efetiva ação dos interessados que pode acender alguma luz para o nosso futuro.
Você — acha que pode fazer o quê?

Filosofia de para-choque

Comecei meu dia batendo o olho num caminhão, que me iluminou com a seguinte demonstração de sabedoria:

DEUS DEU A VIDA
PARA CADA UM CUIDAR DA SUA

Adoro frases de para-choque de caminhão. Ou carroceria, ou cabine, como neste caso. Há anos tento re-encontrar um texto no qual um homem recebe uma estranha ligação telefônica, na qual uma pessoa lhe diz um monte de frases estapafúrdias. Somente mais tarde é que o homem se lembra de haver pedido, se não me engano ao seu irmão, que viajava bastante, que coletasse frases de para-choque para uma pesquisa que desejava fazer. E tal ligação era um intermediário passando os resultados. O texto, cujo autor o nome realmente se perdeu de mim, é muito interessante, especialmente pela reunião de aforismos que traz. Se alguém conhecer tal texto e puder me enviar, agradeço efusivamente.
No mais, bom dia a todos e cuidem de suas vidas. Só delas, por favor.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Até ele aprovou

Até Rodolfo Martins considerou acertada a decisão de seu pai, Juraci Martins, de não pagar a sua fiança, após ser preso por dirigir embriagado e se envolver em um acidente. O caso teve ampla repercussão e fez de Juraci, na minha opinião, um exemplo de pai e de cidadão, um modelo a ser respeitado e seguido.
Mas está difícil isso ocorrer, no mundinho permissivo em que vivemos, onde as crianças, desde muito cedo, viram tiranas com amplo apoio dos pais, pois do contrário as pobrezinhas ficam traumatizadas.

Garimpando nos blogs amigos

Dando uma zoiada no que a blogosfera traz de bom, localizei e recomendo a leitura do Pedro Nelito, sobre o apelo das crianças pela conservação do meio ambiente.
Já o polêmico Eduardo Lauande chuta o balde sobre a educação universitária. Eu até já andei comentando por lá.
Boa leitura.

Consternação ofusca brilho

Bandeiras a meio mastro e faixas pretas nos atletas:
sentimento de luto no Pan


Durante todo o dia, as medalhas tilintaram no cofre brasileiro. Só de ouro, foram seis. Subimos à terceira colocação no quadro geral de medalhas, com boas condições de ir a segundo. Como ocorre nos grandes eventos esportivos, onde havia uma TV, lá havia ao menos um grupinho atento, comentando, torcendo. Sorrisos com os ouros de Diego Hypólito e principalmente de Jade Barbosa, que substituiu o choro de dois dias atrás pelo sorriso vitorioso.
Podíamos ter terminado o dia assim: comemorando conquistas, rindo, falando de um orgulho de ser brasileiro que só aparece nessas horas. Mas o vôo JJ 3054 da TAM cruzou o caminho de todos os brasileiros e, ao se chocar contra um edifício da própria companhia, tornou-se o maior acidente aéreo da história brasileira e consternou a todos nós. Eu senti toda a minha alegria se desvanecer. Fiquei sentado na poltrona, um tempão, olhando aquelas cenas.
As coberturas jornalísticas sentiram que seria artificial, e talvez até de mau gosto, fazer a festa do Pan com tantas famílias sofrendo numa tragédia de repercussão internacional. Por isso, os jornais se concentraram no acidente. O Pan foi apresentado, mas nem chegaram a fazer referência a todas as conquistas brasileiras do dia. E o tom dos jornalistas, mesmo nessas horas, era contrito, digno. O que se podia esperar, no contexto.
Hoje, passaremos o dia gravitando entre esses dois assuntos, unificados através das faixas pretas que os atletas utilizarão, em homenagem às vítimas e suas famílias.
Fica o registro da solidariedade dos bons brasileiros, que após o acidente acorreram ao local levando água e cobertores, numa tentativa de ajudar de algum modo. Lamentavelmente, não houve quem precisasse dos cobertores.
Para piorar, sabemos de antemão que a apuração das causas desse acidente ainda mexerão intensamente com os nossos nervos.
Minha solidariedade a todas as pessoas direta ou indiretamente atingidas pela tragédia. Deus abençoe este país.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Apenas "zoando"

Notícia comentada:

Acusados de espancar doméstica dizem que estavam "zoando"
Os cinco rapazes acusados de espancar a empregada doméstica Sirlei Dias de Carvalho, na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio), afirmaram segunda-feira (16) em seu depoimento à Justiça que, naquele dia, saíram para "zoar as putas".


Depois da audiência que durou mais de quatro horas, o juiz Marcel Laguna Duque Estrada, em exercício na 38ª Vara Criminal do Rio, decidiu manter a prisão preventiva dos rapazes e negar um pedido de liberdade provisória movido em favor de dois deles, Felippe de Macedo Nery Neto, 20, e Rubens Pereira Arruda Bruno, 19.


Na audiência, Nery Neto afirmou que todos os acusados ingeriram bebidas alcóolicas naquela noite e que sofre de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

No mais, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade não comprometem a capacidade de raciocínio do indivíduo. Ou seja, esses menininhos não perderam nem sequer tiveram diminuída a capacidade de julgamento sobre as condutas realizadas, bem como a capacidade de autodeterminação. Isso em nada os beneficia.

Bruno, em seu depoimento, afirmou que os rapazes abordaram três mulheres — entre elas Sirlei — que "pareciam prostitutas".
Aqui, o malandro admite tacitamente que ele e seus comparsas são pessoas socialmente perigosas. Basta que eles suponham que tal ou qual pessoa é prostituta e a agressão, para eles, está legitimada. Nem me darei ao trabalho de comentar sobre agressão a prostitutas. Basta que se diga que ninguém está seguro perto deles. Mais uma razão para mantê-los presos preventivamente.

Ele disse, então, que começou a agredi-las depois de ter sido atingido por uma bolsa no rosto.


Os outros quatro rapazes acusaram Bruno de ter levado a bolsa de Sirlei consigo após a agressão e de tê-la jogado fora, após a fuga.


Nos relatos, os rapazes admitiram ainda que quatro deles se envolveram em uma briga em um posto de combustíveis e que, depois, Bruno e o também réu Leonardo Andrade ainda "resolveram azarar" umas mulheres perto de casa e se envolveram em uma briga com um homem que simulou estar armado.


Com a negativa do magistrado, Nery Neto, Bruno e os outros três réus, Rodrigo dos Santos Bassalo, Leonardo Pereira de Andrade e Julio Junqueira Ferreira, permanecem presos.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u312514.shtml
Para mim, isso indica que os mocinhos não podem ser contrariados de jeito nenhum. Se forem, ficam nervosinhos.
Para os delitos de furto e roubo, a motivação do agente é indiferente. Se o cara levou a bolsa e jogou-a fora, ainda assim o roubo está configurado.
Eis aqui o germe da tese de legítima defesa ou, pelo menos, de crime cometido por violenta emoção logo após injusta provocação da vítima. Tecnicamente, contudo, nem merece comentário.
O consumo de bebiba alcoólica só piora as coisas. Os sujeitos já são violentos e, sabidamente, a bebida potencializa a agressividade. Logo, há um fator endógeno que se soma a outro, exógeno e altamente fomentado na sociedade. Num caldeirão desses, melhor que a justiça os mantenha presos. As estatísticas estão aí para mostrar como o alcoolismo tem custado caro ao mundo, especialmente aos brasileiros.
Diante da confissão dos réus e dos motivos apresentados, fica muito fácil ao juiz indeferir o pedido de liberdade. Vale lembrar que esse Nery Neto fez gestos ameaçadores para a vítima, mesmo através do vidro que os separava. Acredito que tenha sido no dia do reconhecimento. Ele deve responder a processo também por esse fato. E coação de testemunha é prato cheio para qualquer juiz manter a custódia preventiva.
Os lindos e encantadores meninos, dando essa explicação, dizem muito sobre quem são. Demonstram incapacidade de tolerar pessoas que não estejam dentro dos padrões que consideram corretos e uma propensão a agressão, ou até a extermínio, do que ou de quem fuja a esse padrão. Que tipo de educação essas criaturas receberam?

Aos amantes de Cuba


Rafael Capote chegou ao Brasil como membro da seleção cubana de handebol. Mas aproveitou a primeira oportunidade e fugiu da Vila Panamericana com destino a São Caetano do Sul — SP, onde pretende radicar-se. Abdicou do Pan, do emprego e, mais especificamente, de sua família, amigos e de toda a vida que conheceu em terras pátrias. Todavia, provavelmente foi a vida que conheceu em Cuba que o levou a uma decisão tão drástica. E não isolada, já que casos semelhantes ao seu já são mais de oitenta.
Cuba é uma espécie de utopia, um dos últimos focos de resistência contra o capitalismo e o imperialismo norteamericano. Conheço pessoas completamente apaixonadas pelo ideário político cubano. Não sou poucas nem desinformadas. Mas eu, que nunca me detive estudando aquela sociedade (admito-o logo), realmente acredito que Cuba representa um modelo inviável no mundo. A globalização pode ter inúmeros aspectos ruins, mas ela é uma realidade irreversível. Enquanto o mundo se aproxima (o que não implica em maior homogeneidade de condições de vida, infelizmente), Cuba continua cerceando o direito de ir e vir. É como se felicidade e justiça social, lá, fossem obrigações de cada cidadão, impostas por decreto. Daí que ninguém pode partir: deve permanecer e ser feliz. Mas a alma humana é desassossegada e muitos prefeririam aventurar. Na minha ignorância, penso que eles têm esse direito.
Gostaria de saber se Cuba é um projeto que ainda pode dar certo. Mas gostaria de uma resposta de quem acredita nisso, se possível.

Derrapando nas curvas

Motorista pára ônibus para reclamar do decote de passageira (da BBC Brasil)

O decote de uma passageira provocou protestos do motorista de um ônibus em uma cidade do interior da Alemanha. O motorista pediu a ela que trocasse de lugar ou saísse do veículo.
O caso ocorreu na cidade de Lindau am Bodensee, no extremo sul do país.
A assistente de vendas Deborah Moscone, 20, estava sentada em um dos bancos da frente do ônibus vestindo uma camiseta que deixava à mostra boa parte de seus seios.
A imagem era bem visível no espelho retrovisor do motorista, que parou o veículo para reclamar do decote.
O motorista disse a Deborah que a visão dos seios o estava incomodando e que ela colocava em risco a segurança dos demais passageiros do ônibus.
Chocada, a passageira formalizou uma reclamação à companhia de ônibus, que apoiou a decisão do motorista.
Segundo o regulamento das empresas de transporte locais, em nenhuma circunstância os motoristas podem ser distraídos durante o exercício da função.
De acordo com o correspondente da BBC em Berlim, Steve Rosenberg, o comportamento do motorista reforça a reputação dos profissionais alemães, considerados bem treinados, altamente disciplinados e preocupados com a segurança.


No Brasil, ou pelo menos em Belém, essa moça ganharia carona diária. Bastaria esparramar-se na tampa do motor.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u312365.shtml

Joia de Jade

Foto de R. Cavallari/Folha Imagem

"É muito difícil errar aquele aparelho. Na hora pensei: 'Não acredito nisso'."
Jade Barbosa, apontada como a melhor ginasta brasileira atualmente

Assisti e sofri, ontem à tarde, às provas individuais de ginástica feminina. Torci não apenas como bom brasileiro, que torce pelos conterrâneos de forma bem bairrista, tenham eles merecimento ou não. Torci porque, para mim, ginástica é o esporte, seguida do atletismo. Torci porque os ginastas brasileiros vêm num crescendo nos últimos anos, fazendo a lição de casa do único modo pelo qual se pode ter sucesso em competições esportivas: investindo e trabalhando sério (exceto no futebol, onde o que vale é a ladroagem dos cartolas). Vide a contratação de técnicos estrangeiros e a construção de um centro de excelência para treinamento, em Curitiba. Torci, enfim, porque os atletas brasileiros têm merecimento.
Quando Jade caiu da barra, na última apresentação, fiquei lívido. Vê-la chorar me atingiu, de verdade, como imagino atingiu muita gente. Foi-se a medalha, mas ficou a certeza de que estamos no caminho certo. E o que essas meninas e os rapazes fazem é grandioso, sério e do mais alto valor.
Acompanhei a apresentação das americanas, torcendo para que torcessem algum tornozelo. Mas elas não se acidentam, não erram, não se desconcentram. Se eventualmente se desequilibram, é no final da apresentação ou após algum exercício tão difícil que o grau de dificuldade elimina o desvalor do erro. Paciência. Posso ter lá os meus acessos de xenofobia, especificamente contra americanos, mas o que fazer se eles investem nos mais variados esportes de modo intenso, consistente e voltado para resultados?
Que fazer se, em cada escola e universidade americana, o esporte faz parte da rotina e não apenas como uma exigência curricular, mas efetivamente sob uma perspectiva de formação de atletas, para competições profissionais?
Quando se ergueram as três bandeiras, a famigerada Old Glory, só pensei em como, no final das contas, isso chega a ser óbvio. Quem investe, recebe.
Investe, Brasil!