segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Tudo em paz

A Idade Média  digo, a classe média  de Belém, que passou o Fórum Social Mundial inteiro com cara de limãozinho azedo, buscando todo e qualquer pretexto para detoná-lo, é obrigada a reconhecer que o megaevento terminou tranquilamente, sem causar os danos que eles tanto vaticinaram.
Houve engarrafamentos terríveis, sim, mas estes acontecem bastando que caia uma chuva mais demorada ou que um ônibus sofra uma pane em rua de grande movimento (duas coisas absolutamente rotineiras na cidade). Houve tumulto na porta da UFRA, por causas mais relacionadas à organização do que ao perfil dos participantes. Aliás, a causa do tumulto foi o acesso a um show musical, que atraiu muita gente, moradora da própria cidade.
E houve, como não poderia deixar de ser, os acontecimentos exóticos, como a marcha da maconha e dois ativistas peladões transando em público para defender as florestas. Mas em relação ao primeiro exemplo, muita gente das zelites está interessadíssima nessa legalização. Tem muito boyzinho querendo simplificar o seu acesso à erva. E quanto ao segundo, eram dois europeus, branquíssimos e estudados.
Esquisitice por esquisitice, temos que acabar com essa mania de achar que somente os assim chamados bichos-grilos cometem atos extravagantes e danosos. Dou-lhes um exemplo:
Nos Estados Unidos, existem umas terapias destinadas, alegadamente, a reforçar laços afetivos entre as pessoas. Para tanto, os terapeutas (muitos deles sem a devida qualificação) simulam a gestação ou o parto. Enfiam os pacientes em lonas que representam o útero ou mergulham o sujeito em piscinas ou banheiras, representando o líquido amniótico e outras loucuras do gênero. Obviamente, acidentes acontecem, inclusive fatais. Embora restritas a um certo público, tais práticas inspiraram, com alguns anos de diferença, dois dos mais famosos seriados já produzidos: Plantão médico e CSI.
A tal terapia, como não poderia deixar de ser, custa caro. Portanto, não é coisa de bicho-grilo. E é feito sem nenhuma bandeira a pretensamente justificar a maluquice. Portanto, meus e minhas, voltamos à estaca zero: tudo é questão de empatia. O crítico critica aquilo de que ele não gosta. E ignora o resto.

9 comentários:

Anônimo disse...

"Lula, seu pamonha!
Larga a cachaça
E vem fumar maconha!"

Era o grito de guerra dos nobres participantes do FSM.

Só gente fina.

Anônimo disse...

Professor, você não é de classe média, não? E quem disse que toda a classe média pensa de maneira caricata, neste retrato maniqueísta que você pinta?
Leio sempre seus comentários e eles costumam ser bem escritos. Só que tem vezes em que eles são muito, muito chatos. São cheios de preconceito contra a classe média à qual você mesmo pertence. Isto sem falar da ideia absurdamente preconceituosa que você tem daquilo que parece pensar ser a classe alta (dos empresários, por exemplo).
Por outro lado, você parece ainda acreditar nos ideais do bom selvagem, da sociedade que corrompe os bons e da natureza amável dos pobres, a quem você adjetiva de coitados, mesmo sem dizê-lo textualmente.
Tenha um pouco mais de cuidado nas generalizações, tanto para o bem, quanto para o mal, e viva com um pouco menos de ódio no coração. Isto não faz bem nem ao corpo, nem à mente.
Um forte abraço.

Yúdice Andrade disse...

Das 11h22, havia cerca de 100 mil participantes do FSM. Você realmente acredita que todos cantaram esse jingle? Que todos defenderam a mesma causa?
Fala sério.
Essa insistência em tratar todo o público do FSM como vagabundos está abaixo da crítica. Boaventura de Souza Santos é vagabundo, por acaso? Segoléne Royal é? Os tantos pesquisadores, estudantes, trabalhadores, povos tradicionais que ali estavam, dentre outras categorias, são?
É uma lástima que os dias passem e os mesmos comentários infantis continuem.

Yúdice Andrade disse...

Caro anônimo (e talvez aluno) das 14h03:
Recebo com serenidade a sua crítica, que considero educada, construtiva e até pertinente. Permita que eu lhe forneça os argumentos sob os quais, entretanto, entendo que ela está errada:
1. De acordo com os últimos critérios que li acerca da divisão em classes econômicas no Brasil, sim, pertenço à classe média. São os economistas que o afirmam. Acho até que eles andam nivelando por baixo. E por pertencer a ela fico proibido de criticá-la? Muito pelo contrário. A meu ver, aí mesmo é que me gabarito a apontar suas mazelas, já que a vejo de dentro e convivo com pessoas das mesmas condições.
Também sou brasileiro, paraense, belenense, advogado, professor e pai, dentre outras categorias que já critiquei, até duramente, aqui no blog. Você, contudo, não se insurgiu quanto a isso. Caso tenha lido tais críticas, vou lhe dizer porque você não se insurgiu. O cerne da questão reside na empatia. Dou-lhe um exemplo:
Se eu fizer uma postagem vergastando professores autoritários, você provavelmente me dará razão, ainda mais se for, de fato, estudante. Porque você não se afiniza ao professor, e sim ao aluno que se torna sua vítima. Eu poderia criticar os intelectuais e os milionários e isso lhe ser indiferente. Mas você se queixa porque falo da classe média. Conclusão psicológica baseada na empatia: você sabe que pertence a essa classe e por isso se afiniza a ela. Por isso repudia a minha crítica.
2. Talvez este debate não ocorresse se você soubesse o que eu chamo, com menosprezo, de classe média. Quiçá até me desse razão. Esclareço: refiro-me a um segmento da sociedade que se caracteriza pela hipervalorização do dinheiro (mas não do trabalho) - aquele ridículo estilo-Amway-de-vida -, do consumismo, que valoriza mais nomes e cargos do que o mérito pessoal e que é, acima de tudo, egoísta e maniqueísta. Se a sua família tem boas condições financeiras mas não se encaixa nesse perfil, é de classe média para a Economia, mas está fora do âmbito da minha crítica. Nesse caso, você não deveria vestir a carapuça. Aliás, pela forma como se expressou, fico inclinado a acreditar que você tem bons sentimentos e de fato não está dentro do universo que repudio. Isto poderia revelar que não estamos em lados opostos, afinal.
Você encontrará no blog duas postagens recentes falando entusiasmadamente do vice-presidente da República, José Alencar. Ele é rico. E eu o admiro publicamente. Sua tese de preconceito começa a apresentar trincas.
3. Ao contrário do que você pensa, não fiz a generalização de que me acusa. Não disse que uma pessoa é isso ou aquilo somente por pertencer à classe média. Mas as limitações deste espaço exigem que certas categorias linguísticas sejam criadas, para que os textos fluam mais rápido. Isso exige, do leitor, capacidade para entender a mensagem. Assim, quando eu falo numa classe média deletéria, você precisa entender que eu me refiro àquelas pessoas que, sendo de tal segmento, possuem os defeitos acima listados. Quem não possui está automaticamente excluído. Isso é lógica. Embora seja meu interesse oferecer uma leitura razoavelmente acessível, é óbvio que este blog não é redigido na mais singela das linguagens, por isso muitos podem não compreender o que pretendi dizer. Nem sempre eu terei tempo e disposição para explicar. Daí me resta conceber as tais categorias.
4. Sim, a generalização é algo perigoso. Tão perigosa quanto é a especulação. E você especula quando me atribui algo inverídico: nunca acreditei no mito do "bom selvagem" (sempre estive muito mais a Hobbes do que a Rousseau) e jamais disse que os pobres tenham uma "natureza amável" ou que sejam coitados. Você me acusa de dizer isso nas entrelinhas, mas é uma interpretação exclusivamente sua e, convenhamos, bastante forçada. Para mim, as pessoas não são coitadinhas. Você se equivoca gravemente sobre meus referenciais ideológicos.
5. Muitos dos meus textos são chatos, sim. Marrentos. Informo-lhe que muitos deles são deliberadamente redigidos assim. Para que o incômodo que provoquem desperte as reações que espero ver. São testes reacionais. No mais, toda pessoa, por mais bacana que seja, em algum momento será inconveniente, exagerada, chata. Talvez eu tenha um talento adicional para isso, mas encaro o fato com serenidade. O nome do blog já deveria ter-lhe prevenido que estou dando a cara a tapa.
6. Quanto a dizer que vivo com ódio no coração, essa é sua mais grave e equivocada especulação. Leia com mais atenção minhas postagens sob as rubricas "humanidades", "paternidade" e "pessoal" que, suponho, você encontrará nelas um perfil bem diverso. Mas essa é apenas a minha impressão.
Foi bom conversar. Um forte abraço e volte sempre.

Anônimo disse...

Cadê o anônimo para a réplica?

morenocris disse...

bach... isso daria um belo de um post, heim? caramba, você é você e boi não lambe. gostei de ver.

beijos.

Arthur Laércio Homci disse...

Querido Professor que emprestou o nome à nossa Turma,

Lendo muitos comentários a respeito do Fórum Social Mundial 2009 em diversos meios de comunicação, creio que esse seja o momento e espaço adequados para tecer algumas considerações sobre percepções estritamente pessoais acerca do evento, do qual tive a oportunidade de participar efetivamente, indo a palestras, oficinas, marchas e tudo mais.

Nunca fui um ativista de movimentos sociais. Como muitos devem saber, sempre fui um “rato de biblioteca”, mas tenho que admitir que esse foi o melhor evento que tive a oportunidade de participar. Não apenas pelas manifestações sociais, que foram todas maravilhosas, mas pela qualidade das palestras e oficinas. Se a percepção de mundo que uma pessoa possui pode mudar, esse tipo de evento contribui efetivamente para isso.

Sou da classe média e, como ex-aluno recente de uma faculdade particular de Belém, o meu ciclo de amizades é composto de pessoas de mesmo ou maior “teor econômico”. Entretanto, esse fato não me fez perder o tino, de maneira que pude perceber o quão válidas e consideráveis são as reivindicações que, de um modo geral, são expostas no FSM, independentemente de classe econômica (mesmo que não sejam as mais adequadas).

Dentro do evento, me emocionei diversas vezes, e senti na pele, no ar, no cheiro, nas cores e, principalmente nas pessoas, o quanto é palpável a expressão: “um outro mundo é possível”.

Precisamos que esses eventos sejam repetidos aqui na nossa “Província”, pois a nobreza há de se acostumar com as manifestações da plebe.

Por fim, não posso deixar de citar um fato, logo na marcha inicial, e que parece ter sido obnubilado pela nossa mídia local (nem os blogueiros comentaram com ênfase). A sede das ORM na Av. Nazaré foi literalmente “ovocionada” pelas participantes da marcha, com gritos de “abaixo à Rede Globo, o povo não é bobo”.

Antes de qualquer coisa, esclareço que não sou a favor desse tipo de manifestação, que beira o vandalismo, tendo em conta que um ovo pode causar muitos estragos, inclusive atingindo pessoas, situação que, graças a Deus, não aconteceu.

Mas, como ser humano, estou exposto a limitações, e uma delas é o terrível sentimento da vingança. Sim, pois a cada ovo que explodia nas paredes do prédio, sentia como se estivesse devolvendo a ovoda diária que levo quando abro o jornal O Liberal, ou quando sou “programado” pela programação da Rede Globo. Nossa, foi um sentimento recompensador (que Deus me perdoe).

No mais, só posso dizer que fiquei maravilhado com o Fórum, e já estou me programando para participar no ano que vem, seja onde for! (aqui em Belém seria ótimo!)

Abraços,

Arthur Laércio Homci

caio disse...

"Idade Média de Belém". Adorei!

Ouvi dizer que o FSM poderá voltar à Província ano que vem. Vamos ver...

Yúdice Andrade disse...

Das 19h17, eu também gostaria de saber. É pena não prosseguirmos uma discussão interessante.

Obrigado, Cris. Só não entendi a do boi.

Pelo que me dizes, Arthur, a graduação representou para ti o que deveria representar para todos: uma fase de verdadeiro crescimento humano. A conquista do conhecimento é um aspecto importantíssimo, mas ele não está no topo de nossas prioridades. O crescimento humano deveria estar no topo das nossas prioridades.
Mas te conhecendo, não me surpreende nada o que me relatas. São essas coisas - participar dessa evolução, ainda que minimamente - que fazem do magistério uma atividade tão gratificante.

Até seria bom, Caio. Mas vai depender de os organizadores terem gostado de verdade do que tivemos aqui. E não gostado só na propaganda do governo.